segunda-feira, 25 de maio de 2009

DEPOIMENTOS


GUINÉ: O DOMÍNIO INSUBSTITUÍVEL

JOAQUIM VIEIRA


Angola emergia como a jóia do Império Português, a Guiné nunca conseguira ultrapassar o estatuto de peça de latão. Do tamanho do Alentejo, pouco mais era do que um enclave perdido na costa ocidental africana, ocupado como entreposto na época do co­mércio de escravos, mas agora tão inútil como a carcaça de um velho navio encalhado. A sua atmosfera, quente e húmida, era irrespirável para um europeu e a sua total ausência de riquezas naturais afastava definitivamente os colonos para outras paragens.
A Guiné constituía, na verdade, uma vasta coutada de uma única empresa comercial - a Casa Gouveia - absorvida em tempos pelo grupo CUF, o mais importante dos conglomerados industriais do Estado Novo. Sob a adormecida administração das autoridades coloniais e dos gestores da Casa Gouveia (que dominava toda a vida económica do território), a Guiné estagnava esquecida, como se vivesse atascada nos lodaçais que formam a foz dos seus mil cursos de água.
As circunstâncias em que se desenrolou a greve dos trabalhadores portuários de Bissau, em Agosto de 1959, contam tudo sobre o retrógrado estado de espírito dominante. De Lisboa, a CUF já dera autorização para se proceder aos aumentos exigidos, mas o administrador local entendeu que não era de ceder a indígenas sob pressão: deviam regressar primeiro ao trabalho, e ele atribuiria os novos vencimentos quando muito bem entendesse.
Não o entenderam os grevistas, que continuaram a paralisação, talvez sob a influência de uma certa efervescência nacionalista vivida na região (a vizinha Guiné-Conakry tornara-se independente em fins do ano anterior, enquanto o outro território fronteiriço - o Senegal - sêlo-ia oito meses mais tarde). No dia 3 de Agosto, toda a oficialagem existente na pequena capital estava no aeroporto, com a farda branca dos momentos festivos, para dar as boas-vindas à mulher do comandante militar da Guiné, quando foi surpreendida com a notícia de que havia tiroteio na cidade. Regressaram apressadamente para descobrir que a Polícia (de efectivos africanos) cercara os grevistas concentrados no cais de Pidjiguiti e começara a disparar sobre eles. Em pânico, estes haviam-se atirado ao mar. É então que um dos oficiais europeus vindos do aeroporto pega numa espingarda e alveja sistematicamente cada uma das cabeças visíveis à tona da água. Do massacre resultarão umas cinquenta mortes.
Por detrás do movimento grevista encontrava-se um grupo nacionalista fundado três anos antes pelo engenheiro agrónomo Amílcar Cabral - o PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde). Na própria designação do movimento estava contida uma das ideias que haveriam de dar ao pensamento de Amílcar Cabral um lugar de destaque no nacionalismo africano. Tratava-se da sua visão pan-africana, para lá das fronteiras estabelecidas pelas potências coloniais europeias, o que atribuía ao PAIGC o original estatuto de «partido binacional», defendendo a independência de dois territórios distintos e o «princípio da unidade Guiné-Cabo Verde». Na verdade, os Cabo-Verdianos dispunham de uma enorme influência na Guiné: tradicionalmente mais cultivados e próximos da cultura europeia - devido à sua mestiçagem e à falta de raízes próprias -, eram utilizados pelos portugueses como «capatazes» para a força de trabalho local, desempenhando inúmeras missões a nível do funcionalismo público e de outros cargos administrativos. O próprio Amílcar Cabral era originário de Cabo Verde, assim como outros fundadores e dirigentes do PAIGC.
O massacre de Pidjiguiti leva o Partido a alterar a sua orientação estratégica: do trabalho junto dos assalariados urbanos, passa para a mobilização prioritária do campesinato - a esmagadora maioria da população da Guiné Portuguesa. Nesta fase, os seus responsáveis preconizam ainda o diálogo com o regime colonial, atitude que se consubstancia no envio ao Governo português, em Novembro de 1960, de um memorando intitulado «Doze medidas para a liquidação pacífica da dominação colonial em África».
Não haverá, obviamente, qualquer resposta de Lisboa. De diamante ou de latão, qualquer peça que constitua o espólio colonial português destinava-se a ser conservada até ao fim dos séculos. O PAIGC proclamará então, em Agosto de 1961, a «passagem da revolução nacional da fase de luta política à de insurreição nacional» (palavras de outro dos seus dirigentes, Aristides Pereira, proferidas mais tarde).
Contudo, não é ainda a guerra. O PAIGC prepara meticulosamente as suas forças, com o declarado apoio do líder da Guiné-Conakry, Sekou Touré, que fornece bases e instalações no seu território. Para lá de algumas acções de sabotagem sem significado, tudo se mantém calmo até 23 de Janeiro de 1963, quando os guerrilheiros do PAIGC desencadeiam um ataque armado à guarnição portuguesa de Tipe, no Sul.

Uma Ofensiva Surpreendente
Assim tem início a guerra nacionalista da Guiné-Bissau. No entanto, ao contrário de Angola, dois anos antes, as Forças Armadas portuguesas já não são apanhadas desprevenidas no novo teatro de operações - o início do conflito tornara-se, de há muitos meses, uma realidade iminente. Só que, aqui, os rebeldes encontram-se num estádio de organização muito superior, o que acaba por surpreender a tropa. O empenho dos guerrilheiros é tanto maior quanto mais desenvolvido é o seu armamento. A AK 47, a Simonov, a PPSH ou o RPG 7 estão nas suas mãos desde o início, atribuindo-lhes uma potência de fogo igual (se não mesmo superior) à das forças adversárias.
A guerrilha atravessa com relativa facilidade a fronteira meridional, vinda da Guiné-Conakry. Por vezes, introduz-se através do mar, utilizando lanchas para se infiltrar em profundidade através dos vastos rios do Sul.
Seis meses depois de iniciar as hostilidades no sector meridional, o PAIGC está apto a abrir uma nova frente no Norte. Nessa altura, já os guerrilheiros controlam zonas nas regiões dos rios Geba e Corubal, sem que as forças portuguesas consigam estancar o seu progressivo alastramento.
A pujança da ofensiva rebelde provoca a desorientação junto do comando português. O chefe militar da Guiné, o brigadeiro Louro de Sousa, desloca-se a Portugal para comunicar ao Governo que a batalha está virtualmente perdida. Mas a perspectiva da derrota militar ou da negociação política não é aceite em Lisboa. Como resposta, ordena-se uma vasta operação destinada a recuperar a ilha de Como, que o PAIGC havia ocupado logo de início. O Executivo atribui tal importância a esta manobra que o ministro da Defesa, general Manuel Gomes de Araújo, vai a Bissau assistir ao seu lançamento.
A batalha da ilha de Como, que dura semanas e atinge o seu auge em Janeiro e Fevereiro de 1964, redunda num fracasso para as forças portuguesas, que não logram reconquistar a disputada parcela de terra. E só então que, aos olhos da tropa embarcada em Lisboa, a guerra da Guiné adquire a sua verdadeira - e terrível - dimensão.
O que primeiro choca os recém-chegados é a dureza do clima, capaz de fundir em poucos minutos, como manteiga, a disciplina do mais bem treinado dos pelotões. Na larga faixa litoral, onde a guerra progride nos primeiros tempos (e que corresponde a metade do território), a terra é insalubre, salgada e pantanosa. O movimento das marés altera constantemente a paisagem emersa e reclama atenção redobrada para escapar às suas armadilhas. Ao contrário do que acontecia em Angola - onde o esforço bélico era suportado sobretudo pelo Exército -, a fisionomia da frente guineense implica uma articulação permanente e ponderada dos três ramos militares. O movimento das forças terrestres é tão importante como o das lanchas da Marinha, no interminável dédalo de rios debruados por uma densa e traiçoeira vegetação. Por outro lado, a exiguidade do território permite à aviação, estacionada em Bissau, atingir qualquer ponto da Guiné em dez minutos, o que se torna psicologicamente reconfortante para as forças de superfície, por saberem que o apoio aéreo não deverá tardar ao verem-se envolvidas numa das emboscadas com que permanentemente são fustigadas pelo inimigo.
Sob o ponto de vista militar, a Guiné constitui um bastião extremamente frágil, cuja defesa é um quebra-cabeças para o mais brilhante dos generais. A sua área reduzida permite incursões permanentes e rápidas, muitas vezes inferiores a vinte e quatro horas: quando a tropa portuguesa contra-ataca, já os guerrilheiros podem ter regressado aos seus refúgios seguros na Guiné-Conakry (ou no Senegal, depois de a guerra se ter iniciado no Norte). Os rebeldes encontram ainda uma vantagem suplementar na extensão e traçado da fronteira e na existência de três grandes rios (Cacheu, Geba e Corubal), que cortam o território em quatro fatias longitudinais e perturbam a movimentação das tropas regulares.
Saindo de Bissau e de mais um ou outro centro populacional, a Guiné vive ainda nos tempos primitivos. As tropas que vão formar a quadrícula de defesa do território terão de erguer tudo de raiz: itinerários, aquartelamentos, pistas de aviação, instalações comunitárias, etc. Para além do total desconforto que se encontra fora da capital, a terra nada produz que possa garantir o abastecimento alimentar: tudo terá de vir de fora, e cada unidade ficará dependente da chegada atempada dos seus víveres. A mesma ementa de enlatados pode repetir-se infindavelmente: a carne de conserva em rodelas, por exemplo, prato a que os soldados chamam «tampas de morteiro».
Mesmo Bissau não constitui o mítico refúgio que Luanda representava para o repouso do guerreiro. A principal cidade nada apresenta de atractivo, a não ser os seus múltiplos cafés, onde a cerveja se escoa abundantemente. A prostituição é toda africana e representa um perigo adicional: para a consumir, é necessário visitar as tabancas, onde o PAIGC se encontra implantado.
A fama da Guiné cedo alastra entre as fileiras portuguesas. Esta torna-se no último dos indesejáveis destinos africanos de qualquer militar. Ser-se destacado para a Guiné tem, por si só, o peso de uma punição. É uma condenação a dois anos de apodrecimento, em condições piores do que as de um cárcere e com maior risco de o regresso se fazer na posição horizontal, entre tábuas. Na verdade, desde o início que o número de baixas das forças portuguesas é percentualmente maior na Guiné do que nos outros teatros de operações em África. Segundo dados oficiais, em 1963, por exemplo, registam-se aqui 6,16 mortos em combate por cada mil dos efectivos estacionados, enquanto em Angola esse valor é de 2,21. No ano seguinte, já com a guerra de Moçambique em pleno desenvolvimento, esse nú5mero é de 4,16 na Guiné, contra 1,41 em Angola e 2,79 na nova frente de combate. E em 1966 será, respectivamente, de 5,08, 1,49 e 3,18.

O Peso do Tribalismo
O fracasso da operação da ilha de Como leva as autoridades de Lisboa à conclusão de que é necessário substituir tanto o governador do território (comandante Vasco Rodrigues) como o responsável militar, que se encontravam, aliás, em conflito pessoal. A escolha dos substitutos é feita com extremo cuidado, já que se tem a consciência da situação desastrosa na Guiné, de tal modo que teria bastado um pouco mais de força ao PAIGC em 1963 para infligir uma derrota às forças coloniais. A manobra dos guerrilheiros parece agora clara: trata-se de dividir o território de norte a sul em duas partes, ignorando por ora o Leste e isolando a zona de Bissau. Esta estratégia encontra-se também condicionada pelos factores tribais - fundamentais num território onde se contam cerca de trinta etnias diferentes. As mais importantes são os Balantas, animistas que constituem quase um terço da população, e os Fulas, muçulmanos que (tal como os Mandingas, da mesma confissão religiosa) dominam o comércio e se impõem sobre os restantes grupos. A rebelião tem início entre os Balantas - a grande base de recrutamento do PAIGC -, enquanto os Fulas, situados a leste, se mantêm fiéis aos Portugueses. A guerrilha é pois mais forte em «chão balanta», mantendo-se ainda inexistente na zona interior. Isolando Bissau, o PAIGC dificultaria a defesa do Leste - que teria eventualmente de ser abandonado pelas forças portuguesas - para lançar depois a ofensiva final sobre a capital.
Perante a difícil situação militar, é decidido concentrar numa única pessoa os cargos de governador-geral e de comandante-chefe da Guiné. A escolha recai no brigadeiro Arnaldo Schultz, um oficial-general de prestígio que havia sido ministro do Interior de 1958 a 1961. Schultz reactiva as operações militares, mas continua a não possuir uma ideia de manobra bem definida, mantendo-se a incerteza sobre como será possível resistir à pressão rebelde.
O PAIGC, que abre entretanto as hostilidades a leste, mantém firmemente sob controlo os seus dois mais importantes «santuários» interiores: as matas do Cantanhez, a sul, e do Oio-Morés, a norte. São nomes de uma ressonância assustadora para a tropa portuguesa, que sabe estar previamente votada ao fracasso qualquer tentativa de penetração no interior dessas densas zonas. A missão é apenas tentada pelas forças especiais, já que as tropas de quadrícula (ao princípio, as únicas praticamente existentes na Guiné) contornam prudentemente tais áreas de inevitável punição. A partir daqui, e em ligação com as bases nos países vizinhos, os guerrilheiros consolidam posições em faixas cada vez mais vastas. Grande parte da região meridional passa para as mãos dos rebeldes, e todas as tentativas levadas a cabo pelas forças portuguesas para a recuperar se saldarão por derrotas, que chegam mesmo, por vezes, a constituir desastres militares. Depois da ilha de Como, assim sucede por duas vezes no Cantanhez, ou ainda em Quintafine. O estratégico corredor de Guileje, fonte de penetração e abastecimento da guerrilha, será igualmente alvo de operações portuguesas fracassadas. Para complicar as coisas, haverá por duas vezes bombardeamentos por engano da Marinha e da Força Aérea às próprias tropas portuguesas.
A violenta reacção dos guerrilheiros leva à restrição das missões de grande aparato sobre concentrações inimigas. As unidades começam a ganhar tendência para se entrincheirar cada vez mais nos aquartelamentos, deixando vastas áreas e a iniciativa ao PAIGC.
As companhias de quadrícula limitam-se a enviar pelotões em patrulhamentos de cerca de vinte e quatro horas, durante os quais a preocupação dominante parece ser evitar o contacto com a guerrilha. As tropas passam a enganar-se a si próprias: muitos pelotões limitam-se a acampar nas proximidades dos respectivos aquartelamentos, queimando o tempo suficiente para poderem regressar e anunciar terem completado o circuito programado.
O PAIGC, entretanto, desenvolve uma actividade de organização administrativa mínima nas zonas por si controladas (onde se contam alguns dos solos mais férteis da Guiné). O sistema posto em prática torna o movimento numa organização modelo para os apoiantes das causas anticolonialistas em todo o mundo. Em 1967, o Partido afirma controlar já sessenta por cento do território guineense. Embora a afirmação seja contestada por Lisboa e dificilmente possa ser comprovada (devendo, na verdade, conter em si algum exagero para efeitos propagandísticos), ninguém poderá pôr em causa que, nas suas áreas, o PAIGC colocou em funcionamento órgãos encarregados da justiça, do ensino, da saúde, do comércio e do abastecimento de bens essenciais.
O movimento é dominado pela personalidade carismática de Amílcar Cabral, já então considerado um dos mais inteligentes e destacados líderes africanos. Cabral estudara em Lisboa, onde, juntamente com outros futuros dirigentes nacionalistas das colónias portuguesas, fora influenciado pela Oposição ao regime de Salazar. Nos seus textos teóricos, sente-se uma forte ligação ao marxismo, que procura adaptar aos condicionalismos específicos da sociedade africana. Mostra-se, no entanto, extremamente pragmático nos seus contactos internacionais e possuidor de hábeis qualidades diplomáticas.
Spínola Altera a Estratégia
Em 1968, o avanço da guerrilha permite-lhe desencadear ataques aos centros populacionais mais importantes (Bafatá, Gabu, Farim, Mansoa, Cansumbé e Bolama), com excepção de Bissau, onde só o aeroporto é atingido por foguetes. Nos rios, também o PAIGC parece constituir uma ameaça cada vez mais séria. Depois de se ter apoderado de embarcações motorizadas ainda em 1963 e de ter afundado algumas lanchas nos anos seguintes, o movimento rebelde continua a inutilizar barcos portugueses. Em 1968, o PAIGC dispõe de várias lanchas rápidas de origem soviética, além de outros barcos motorizados. O Corubal ficará para a Marinha como o mais explosivo de todos os seus cenários de actuação durante a guerra em Africa. Para agravar o desgaste sofrido neste rio, uma lancha com tropas vira-se nas suas águas, perecendo dezenas de soldados.
Em Lisboa, considera-se que a incompetência de Shultz levará brevemente o PAIGC a uma vitória militar. O Governo resolve então reformular a estratégia para a colónia, o que passa em primeiro lugar pelo afastamento do seu governador. Em sua substituição, é escolhido um oficial de Cavalaria que, em Angola, dera mostras de grande capacidade de comando, de manutenção da disciplina e eficiência das tropas, de adaptação às situações concretas e de conhecimento generalizado das tácticas marciais. Conseguiria o então brigadeiro António de Spínola inverter a situação na Guiné em favor das forças portuguesas? Essa era a esperança de Salazar quando o envia para a Guiné como governador-geral e comandante-chefe, em Maio de 1968.
Quando Spínola chega ao território, está prestes a fechar-se o anel rebelde sobre a capital. Com o Sul tomado (salvo alguns aquartelamentos portugueses) e a preparação de uma ofensiva a leste, o esforço principal dos guerrilheiros exerce-se agora a noroeste. Para intensificar a acção nessa zona, o PAIGC desloca mesmo o seu Comando da Frente Norte do Morés para a região de Choquemone-Insumete, de onde partiriam três linhas de penetração em «chão manjaco» (área de Teixeira Pinto).
O novo governador revela de imediato a sua intenção de proceder a profundas alterações, ao remodelar os postos dos altos comandos militares e civis. Numa reunião de todos os comandantes de unidades e subunidades dos três ramos das Forças Armadas, realizada em Bissau, desenha então a sua linha fundamental de orientação. Uma «guerra subversiva» não se ganha militarmente, admite Spínola. A vitória só seria possível no campo político, através da actuação do Governo. Portanto, o que ele pede aos militares não é que ganhem a guerra, mas antes que não a percam, até se encontrar a saída política. Para si, assume a responsabilidade da condução do conflito e do respectivo resultado, o que implica que o seu mandato será constituído por uma forte componente política.
Mas antes mesmo de entrar neste domínio, Spínola vai investir na componente militar, imprimindo às forças portuguesas características mais ofensivas. Todas as unidades estacionadas na Guiné vêem a sua missão redefinida. Nas áreas de implantação do PAIGC, o comandante-chefe retira a quadrícula, passando a actuar apenas com tropas de intervenção sob seu comando directo. No conjunto, isto significa uma ligeira retracção do dispositivo militar português, que abandona uma ou outra área de fronteira sujeita a permanente flagelação lançada dos países limítrofes ou sem grande interesse estratégico. Contudo, as tropas portuguesas permanecem em muitas guarnições fronteiriças, sofrendo o permanente desgaste provocado pelo PAIGC, mas impedindo o movimento de reclamar a conquista de praças-fortes adversárias.
No mapa, Spínola dará prioridade à acção no Noroeste, para evitar o cerco final a Bissau. Por outro lado, procurará manter a situação favorável no Leste, garantindo a simpatia da etnia fula e prevenindo as infiltrações dos rebeldes. O Sul permanecerá, por enquanto, entregue às mãos do PAIGC.
O comandante-chefe adquirirá enorme carisma junto da tropa devido ao seu comportamento pouco ortodoxo. É frequente vê-lo desembarcar do helicóptero, de camuflado, monóculo, luvas e pingalim, em zonas consideradas perigosas, para acompanhar a evolução das operações e puxar pelo moral dos subordinados. A sua presença inspira temor às fileiras. Tem fama de duro e inflexível, embora se diga que, em privado, ele se deixa influenciar pelos oficiais que lhe estão mais próximos e considera seus amigos. Para a finalização de uma operação no Leste, entende que o Exército deve bombardear território da Guiné-Conakry, onde estão alojadas baterias do PAIGC. Até esse momento, os comandos portugueses têm tentado evitar intervenções nos países vizinhos, temendo as repercussões diplomáticas, o que o major encarregado da operação faz salientar a Spínola. Este, porém, insiste, e, se o oficial quer, passar-lhe-á a ordem por escrito. Assim é feito, tornando-se a Guiné-Conakry pela primeira vez alvo da artilharia portuguesa.
Para levar a cabo o seu programa político-militar, Spínola tem o cuidado de se rodear de alguns dos mais competentes oficiais do Exército. Trabalharão junto a ele militares como Firmino Miguel, Pedro Cardoso, Ramalho Eanes, Carlos Fabião, Lemos Pires, Otelo Saraiva de Carvalho, Carlos Azeredo, Manuel Monge, Almeida Bruno, Robin de Andrade, Ricardo Durão e Rafael Durão. Também o escol dos pilotos-aviadores portugueses está concentrado na base aérea de Bissau.
No domínio político, Spínola valoriza os canais de contacto directo ou indirecto com as forças apoiantes da guerrilha ou com o próprio PAIGC. Esse era um terreno que se encontrava praticamente virgem antes de chegar a Bissau. As autoridades portuguesas tinham estimulado a acção de um grupo alternativo ao PAIGC - a FLING (Frente de Libertação Nacional da Guiné), de Benjamim Pinto Bull, que nunca combatera e se mostrava favorável a entendimentos com Lisboa. Porém, a FLING jamais se impusera como contraponto da organização de Amílcar Cabral, pelo que constituía uma aposta perdida. O primeiro contacto entre a FLING e as autoridades portuguesas fora promovido ainda em 1963 pelo presidente senegalês, Leopold Senghor. Senghor receava a influência de Sekou Touré sobre o PAIGC e a possibilidade de uma Guiné-Bissau independente constituir um instrumento de Conakry mesmo encostado à fronteira litoral do Senegal. Embora, por razões de solidariedade pan-africana, viesse a facilitar a instalação de bases de guerrilha no seu território, mantinha uma atitude de conveniente ambiguidade perante o desenrolar do conflito. Também o seu relacionamento com os Portugueses era incerto e regularmente pontuado por protestos contra alegados bombardeamentos do seu território pela aviação de Bissau.
Diálogo e Cacete
Em 1968, porém, Senghor mostrara-se favorável a que a Guiné-Bissau permanecesse integrada, depois da independência, numa confederação que designava por «Comunidade Afro-Luso-Brasileira». Saudando a chegada de Spínola através de um mensageiro da PIDE, o líder senegalês propunha mesmo um encontro com o novo governador. Lisboa achou prematuro, mas, depois da substituição de Salazar por Marcello Caetano, a receptividade a propostas desse tipo iria mudar. Após contactos através da Embaixada suíça em Dakar (dado que as relações luso-senegalesas se encontravam cortadas), um enviado português foi a esta capital discutir a possibilidade do estabelecimento de uma ligação com o PAIGC, sob os auspícios do próprio Senghor. Acordou-se que, num gesto de boa vontade, o Exército português suspenderia as operações ofensivas contra a guerrilha, mas Lisboa viria a queixar-se do lançamento de uma série de ataques violentos pelos rebeldes, a partir do Senegal, e a dar por rompido o entendimento. Dakar queixou-se de novo pela «agressão» nas Nações Unidas, mas a diplomacia secreta seria retomada mais tarde com um encontro entre os ministros dos Negócios Estrangeiros dos dois países, em Paris. O Senegal revela porém, na ONU, que estão em curso negociações. O PAIGC, que declara sentir-se traído por desconhecer os contactos, lança então novos ataques a partir da fronteira norte, o que leva a nova retaliação e ao mesmo processo de queixa nas Nações Unidas.
Está-se nos primeiros meses de 1970, e se as conversações com Dakar estão bloqueadas, o mesmo não acontece com os contactos directos estabelecidos entre o Exército e comandantes da guerrilha na zona do «chão manjaco» (Noroeste). O processo dura já há meses. Ao décimo terceiro encontro, está presente Spínola, desarmado, como se combinara. A reunião seguinte é marcada para 20 de Abril, e nela vão participar, pela parte portuguesa (e também desarmados), os majores Passos Ramos, Pereira da Silva e Magalhães Osório, oficiais da Repartição de Informações em Teixeira de Sousa. Quando voltam a ser avistados, algum tempo depois, estão abatidos com um tiro na nuca, os seus corpos retalhados e as cabeças cortadas. Nunca se soube ao certo o que aconteceu, mas é possível que a direcção do PAIGC, tendo sabido da existência de conversações à sua revelia, resolvesse castigar os comandantes envolvidos e emboscar os oficiais portugueses. Trata-se de um golpe nos esforços de negociação política tentados por Spínola. Os combates voltam a endurecer na sequência do assassínio dos três majores. O governador da Guiné muda então de táctica, procurando atingir directamente a retaguarda do PAIGC. A ideia consiste em promover um golpe de Estado em Conakry, que deponha Sekou Touré e leve ao Governo uma corrente oposicionista que cesse o apoio aos rebeldes de Amílcar Cabral. Spínola reúne em Bissau membros da Frente de Libertação Nacional Guineense (FLING), contrária ao regime de Touré, enquanto o então tenente-coronel Firmino Miguel traça os planos para a execução do golpe. Marcello Caetano dá o seu acordo a que um destacamento português intervenha em Conakry, desde que não deixe na cidade qualquer prova do seu envolvimento.
A operação, com o nome de código «Mar Verde», tem lugar entre os dias 20 e 23 de Novembro. Seis lanchas da Marinha portuguesa dirigem-se a Conakry com tropas africanas de elite usando a arma dos guerrilheiros - a AK 47 - e a farda do PAIGC. A bordo seguem também duzentos elementos da FLING, que se aproveitarão da incursão para tomar o poder. A expedição é dirigida pelo comandante Guilherme Alpoim Calvão.
Os atacantes levam por missão destruir as lanchas rápidas que constituíam a Armada da Guiné-Conakry e os caças MIG 15 e 17 da sua Força Aérea, neutralizar as instalações pertencentes ao PAIGC, assassinar Amílcar Cabral e Sekou Touré e ocupar a emissora estatal para que a Oposição apelasse ao derrube do regime e solicitasse a intervenção militar portuguesa em defesa do seu Governo.
Contudo, a operação constitui um fracasso quanto aos seus mais importantes objectivos. São destruídas as embarcações ancoradas no porto (com minas fornecidas pela Africa do Sul) e as instalações do PAIGC e libertados vinte e seis soldados portugueses detidos pelos rebeldes e quatrocentos oposicionistas guineenses, mas está-se muito longe de conseguir o golpe de Estado. Nem a emissora é tomada, nem os MIG são neutralizados (por se encontrarem noutra base), nem Cabral e Touré (ausentes de Conakry) são encontrados. Os atacantes desembarcam na madrugada de 22 e retiram precipitadamente na manhã do mesmo dia, deixando em terra alguns dos membros da expedição, cuja captura facilitará a descoberta da origem da operação e o escândalo internacional que se seguirá.

A Ofensiva Psicológica
Spínola, entretanto promovido a general, vai apostar na outra componente do seu programa: a acção político-ideológica. Trata-se de disputar a população ao PAIGC no terreno da propaganda, criando a ideia de que as autoridades portuguesas garantem não só melhores condições de vida como a defesa das tradições culturais de cada uma das tribos. É a campanha que o governador designa «Por uma Guiné melhor».

Primeiramente, os habitantes das zonas sob maior disputa são transferidos para aldeamentos estratégicos, que facilitem o controlo da tropa portuguesa. A escolha dos novos locais é feita, porém, de acordo com os chefes das aldeias, de modo a evitar conflitos com a sua deslocação forçada. São criadas milícias e distribuídas armas a algumas aldeias, para a sua «autodefesa». No domínio da ofensiva psicológica, Spínola promove a realização de dois Congressos do Povo da Guiné (em 1971 e 1973), onde os delegados discutem livremente e sentem poder dispor de alguma influência e participação na administração do território (o PAIGC responde com a criação da Assembleia Nacional Popular da Guiné). São promovidas melhorias ao nível das infra-estruturas de carácter social.
Com esta manobra, o comandante-chefe conseguirá suster o avanço da guerrilha para novas áreas, mas não fazer recuar os rebeldes das posições já por eles conquistadas. Em princípios dos anos 70, Portugal dispõe na Guiné de trinta mil tropas europeias e de mais de vinte mil africanos com armas (comandos, milícias e grupos de «autodefesa»), enquanto as fileiras do PAIGC são formadas por uns sete mil combatentes, articulados em grupos e bigrupos. De facto, toda a população do território está virtualmente armada, quer se situe de um lado ou do outro.
Os aquartelamentos portugueses, rodeados por paliçadas de troncos de palmeira e arame farpado e muitas vezes equipados de abrigos subterrâneos, são frequentemente atacados, o que não acontecia em Angola ou em Moçambique. Os itinerários entre povoações atravessam quase sempre zonas controladas pelo PAIGC, obrigando ao uso de helicópteros como precioso instrumento táctico. A densidade de incidentes bélicos no exíguo território da Guiné ultrapassa de longe a das outras duas colónias em guerra. A pressão sobre os soldados é muito maior, o seu desgaste psicológico mais intenso e o seu moral mais reduzido. Suportar os vinte e dois meses de comissão (e não vinte e quatro, como em Angola e Moçambique, devido à dureza das condições na Guiné) sofrendo o menos que se puder é o objectivo de qualquer um. Se possível, acompanhado de uma namorada fula, etnia cuja beleza feminina ganha prestígio nas fileiras portuguesas.
Mas a actividade da guerrilha, que redobra de intensidade em cada segunda metade da estação seca (de Março a meados de Junho), raramente permite a distensão. A combatividade dos seus elementos é incomparavelmente maior do que a verificada em Angola, como o sentem os quadros militares que já passaram pelo outro território. De entre todos os comandantes do PAIGC, há um que cedo se torna lenda, de tal modo o seu nome inspira apreensão e, por vezes mesmo, pânico. Cresceu em Bissau (onde chegou a jogar futebol com a guarnição portuguesa) sob o nome de João Bernardo Vieira, mas o seu apelido de combate é Nino. Apesar de nunca um soldado português ter avistado o comandante Nino (pelo menos, de maneira a podê-lo contar aos seus camaradas), era fácil adivinhar a sua presença numa determinada região, pela dureza da manobra rebelde. Os seus combatentes eram os únicos que, no cerco a um aquartelamento, ousavam avançar até ao arame farpado. «E o Nino que comanda», logo se comentava entre a tropa.
O Exército, aliás, conseguia controlar as entradas de Nino Vieira na Guiné, por ter decifrado o sistema de comunicações via rádio do PAIGC. Mas quando os comandantes eram informados do facto, já a coluna do chefe guerrilheiro podia ter desencadeado uma meia dúzia de ataques. E apesar de uma complexa operação de emboscada que uma vez lhe foi montada, o seu grupo saiu incólume, depois de desorganizar as fileiras adversárias.
Em Junho de 1971, o PAIGC infiltra-se pela primeira e única vez na região de Bissau, realizando ataques que causam mortos entre as unidades portuguesas. A guerra parece ter chegado às portas da capital. As Forças Armadas obtêm, entretanto, prova do apoio directo de Havana aos rebeldes, quando uma unidade de pára-quedistas captura no interior do território um militar cubano - o capitão Pedro Peralta.
Acentuando o isolamento diplomático de Lisboa e o crescente apoio internacional que o PAIGC vem recebendo, uma missão da ONU, constituída por três membros do seu Comité de Descolonização, desloca-se, em Abril de 1972, às zonas controladas pelo movimento de Amílcar Cabral. A viagem é organizada confidencialmente, para evitar uma operação portuguesa em larga escala, mas o Governo é informado e ordena a Spínola o desenvolvimento de todos os esforços ao seu alcance para impedir a entrada da delegação no território. O próprio ministro do Ultramar, Silva Cunha, desloca-se na altura a Bissau. É declarado o estado de prevenção em toda a Guiné. A aviação bombardeia intensamente, dia e noite, com napalm e bombas de fragmentação, a zona de fronteira com Conakry e as regiões por onde a missão poderia passar. Desencadeiam-se assaltos com tropas helitransportadas, desembarques de tropas especiais ao longo dos rios e bombardeamentos ininterruptos da Artilharia. Diversas aldeias são destruídas e mortas algumas dezenas de civis. Mesmo assim, os enviados das Nações Unidas declaram ter cumprido a sua missão, percorrendo duzentos quilómetros em áreas do PAIGC. O seu relatório será altamente favorável aos rebeldes, ao mesmo tempo que exprime condenação pela intransigência do regime português. Meses depois a ONU reconhecerá o PAIGC como «único, legítimo e verdadeiro representante do povo da Guiné-Bissau e de Cabo Verde».

A Grande Cartada do Governador

Perante este quadro, Spínola joga, em Maio de 1972, a sua mais arriscada cartada política como governador da Guiné. Por intermédio de agentes da Direcção-Geral de Segurança, sabe-se que Senghor está disposto a um tête-à-tête com o comandante das forças portugueses, e Spínola declara-se aberto à iniciativa, para o que obtém caução de Marcello Caetano. O encontro (secreto) tem lugar num complexo turístico, no Sul do Senegal. Em caso de qualquer complicação, a Força Aérea tem ordens para arrasar o local: Spínola e comitiva (onde figura Carlos Fabião, oficial do seu Estado-Maior, aqui disfarçado de agente da DGS) podem ser encontrados mortos (explicar-se-ia que teriam sido arrastados da Guiné para ali), mas nunca vivos.
O presidente senegalês oferece-se de novo como medianeiro entre Portugal e o PAIGC para a obtenção de um cessar-fogo que conduza a conversações conjuntas sobre o futuro da Guiné. Posteriores contactos entre Spínola e Senghor tornarão um pouco mais concreta esta proposta, pela qual o governador da Guiné se deixa entusiasmar. Em Lisboa, porém, Marcello Caetano não quer ceder no princípio de nunca reconhecer um movimento de guerrilha como força beligerante com território sob seu controlo. O assunto é levado ao Conselho Superior de Defesa Nacional, de onde sai uma posição claramente hostil à sugestão de Spínola. Como acontecera até aqui, continua a prevalecer a teoria dos dominós: a queda de uma das colónias ou a sua cedência através de negociações (mesmo num quadro federativo) implicará, por arrastamento, a perda de todas as outras. O governador da Guiné recebe ordens para suspender as conversações com o líder senegalês. Mais tarde, Caetano resumirá epistolarmente a sua posição a Spínola, nos seguintes termos: «Para a defesa global do Ultramar, é preferível sair da Guiné com uma derrota militar com honra do que por um acordo negociado com os terroristas, abrindo caminho a outras negociações.»
A resposta de Lisboa é recebida com desânimo em Bissau, onde Spínola discute desde há alguns meses com os membros mais chegados do seu staff as saídas políticas para o termo da guerra em Africa. A falta de abertura do Governo obriga a pensar em alternativas a mais longo prazo, mas, por agora, o que Spínola tem a fazer é prosseguir a guerra.
Enquanto o PAIGC resolve intensificar a sua acção, em resultado directo dos encontros entre Spínola e Senghor, o governador joga agora a sua cartada militar decisiva: o ataque massivo ao Sul, o grande bastião da guerrilha, até agora deixado ao seu controlo, praticamente desde o início da guerra.
Para lá de algum recuo dos rebeldes, para os seus «santuários», a situação não sofrerá grandes alterações até Janeiro de 1973, mês em que o PAIGC recebe o mais rude golpe da sua história: no dia 20, numa altura em que passa uma década desde o início da luta armada, Amílcar Cabral é assassinado em Conakry. As circunstâncias da ocorrência permanecerão nebulosas, mas, apesar de repetidas acusações de que Portugal se encontrava por detrás do golpe, nunca foi possível descobrir um rasto que comprovasse tal ligação. Sabe-se apenas que quem matou Cabral foram elementos do seu próprio partido, provavelmente dissidentes. Admite-se que na origem tenham estado as nunca resolvidas rivalidades no interior do PAIGC entre cabo-verdianos e guineenses (queixando-se estes da hegemonia dos primeiros), mas ignora-se quem as acicatou. Fontes do Governo português adiantaram que o próprio Sekou Touré poderia ter ordenado a acção, não só porque pretenderia que o PAIGC proclamasse unilateralmente a independência (ao que Cabral parecia opor-se), mas também porque o líder rebelde não aceitaria a sujeição incondicional do seu movimento a Conakry. Tudo ficou, porém, por comprovar.

«Strella»: os Portugueses Perdem o Céu

Ao contrário do que se poderia esperar, a guerrilha reage, com um vigor nunca até aí demonstrado. No primeiro trimestre de 1973, segundo dados oficiais, as forças portuguesas sofrem mais mortos do que em qualquer outro período idêntico na Guiné nos anos mais recentes (cento e trinta e cinco contra quarenta e oito nos três primeiros meses de 1972).
E então que, no mês de Março, surge a arma que, definitivamente, faz desequilibrar o conflito a favor do PAIGC - o míssil terra-ar Strella, de origem soviética. No espaço de poucos dias, são abatidos cinco aviões portugueses, o que deixa atónitos os comandos em Bissau, até aí habituados à inviolabilidade dos céus do território. Entre os aparelhos derrubados figuram dois caças supersónicos do modelo Fiat G 92 (pertencentes a um lote fornecido pela Alemanha Ocidental em meados dos anos 60 e concebido para as forças da NATO). A bordo de um deles, morre o ás da aviação de caça portuguesa, tenente-coronel Almeida Brito.
Desencadeia-se uma onda de pânico entre os militares portugueses: sem domínio aéreo - essencial para a cobertura das forças de superfície - será impossível resistir por muito mais tempo à pressão atacante da guerrilha. Durante semanas são suspensos os voos. Ninguém sabe como fazer frente aos Strella. São pedidas informações aos americanos, mas não há resposta imediata (na verdade, chegará três anos mais tarde). Com um avião mais veloz como o Mirage - cuja aquisição já antes fora solicitada pela Força Aérea - teria sido possível escapar a estes engenhos um pouco elementares, disparados de uma clareira, sobre o ombro de um combatente. Mas o Governo não dispunha de verbas para isso (como, de resto, também não fornecia o reforço de efectivos terrestres solicitado por Spínola).
A guerra era para ser feita à medida dos parcos recursos disponíveis pela Nação, mas estava agora claro que se dera o caso único de, num conflito desta natureza, ser a guerrilha a introduzir as novas tecnologias. Os mísseis terra-ar vinham apenas juntar-se a outros equipamentos terrestres (RPG's, morteiros de 82 mm, foguetes terra-terra de 122 mm, minas, etc.) para os quais as forças portuguesas já não conseguiam dispor de equivalente.
Aproveitando a momentânea desorientação do inimigo, o PAIGC desencadeia então ataques em força contra as guarnições de Guidaje (a norte), Guilege e Gadamael (a sul). As posições em Guidaje e Gadamael são mantidas a custo, com o recurso a forças de elite e aos melhores oficiais operacionais de Spínola. Guileje é porém abandonada precipitadamente pelo Exército, que deixa para trás uma vasta quantidade de material. O facto é amplamente explorado pela propaganda rebelde.
Entretanto, os caças voltam a voar, mas apenas e a uma altitude de segurança superior a dez mil pés (e de onde é impossível escolher alvos para bombardeamento). Os aviões a hélice, que se deslocam ao interior, são obrigados a aterrar e levantar em espiral. Quanto aos helicópteros, passam a efectuar apenas voo raso, evitando as clareiras. As bombas serão atiradas de improviso de velhos Dakota, através do orificio de que dispõem para fotografia aérea. Ao levantarem voo, os homens vão deitados em cima dos projécteis, para não rolarem pelo chão.
Nada disto evitará a rápida degradação da situação militar. A aviação possui agora zonas interditas e missões eliminadas, desprotegendo as forças terrestres. Spínola envia para Lisboa um relatório pessimista, onde reconhece a superioridade do armamento adversário e alerta para o risco de se entrar numa guerra convencional em que o PAIGC recorra a meios aéreos e blindados, contra os quais não existem eficazes meios de defesa. Parece mesmo que, na URSS, já se treinam rebeldes para a pilotagem de caças MIG. O relatório causa alarme em Lisboa e, para recolher informações mais seguras, é enviado a Bissau o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, general Costa Gomes. No regresso, Costa Gomes comunica ao Governo que a manutenção da Guiné ainda é possível. De acordo com as suas teses, a situação deve-se ao facto de os militares não irem para o território suficientemente informados e preparados sobre o tipo de guerra que aí se desenrola. O chefe do Estado-Maior General acha um erro continuar a sustentar posições fronteiriças, sujeitas a flagelamento contínuo sem possibilidade de retaliação. Propõe uma retracção do dispositivo de quadrícula, para longe da fronteira e apenas em volta dos centros mais importantes, deixando o resto como área de livre actuação das forças de intervenção. Em face da sua exposição, o primeiro-ministro resolve nomear como sucessor de Spínola (que já havia terminado a sua comissão e se encontrava desde o ano anterior a aguardar o substituto) aquele que era tido por muitos como o mais brilhante, competente e corajoso general português - José Bettencourt Rodrigues, que se destacara sobretudo no comando da Zona Militar Leste de Angola.
Entre 18 e 22 de Julho, o PAIGC realiza em «território libertado» o seu II Congresso, que elege Aristides Pereira como novo secretário-geral. É um passo na preparação da declaração unilateral da independência, de que se vem a falar há já algum tempo. A cerimónia terá, com efeito, lugar pouco tempo depois, em 24 de Setembro, na zona de Madina do Boé, uma localidade do Sudeste que, por razões estratégicas, havia sido abandonada pelos militares portugueses há já alguns anos. A novel República da Guiné-Bissau será de imediato reconhecida por dezenas de países.

A ocorrência de Madina do Boé acelera a partida de Bettencourt Rodrigues para a Guiné. No entanto, o novo governador e comandante-chefe nada mais terá a fazer do que gerir da melhor maneira a cada vez mais difícil conjuntura bélica. Ao contrário do que fizera no Leste de Angola, não possui agora qualquer possibilidade de negociar politicamente com o inimigo, dado o estado avançado a que o conflito já chegou. Para mostrar a dois jornalistas alemães que controla todo o território, organiza uma deslocação com eles a Madina do Boé. Mas a jactância sai-lhe cara, em virtude da amplitude dos meios empregues para a operação.Com o advento de nova estação seca nos primeiros meses de 1974, confirma-se a implacável determinação do PAIGC, tanto no Leste como no Sul (onde é conquistado o aquartelamento de Copa). Os seus comandantes acabavam de se encontrar para delinear novos planos de ataque quando, em Lisboa, a conspiração militar de 25 de Abril derruba o regime. Poucos oficiais que tenham conhecido o atoleiro guineense duvidam de que foi deste modo que as Forças Armadas portuguesas se salvaram de uma derrota no terreno. O próprio Bettencourt Rodrigues reconhecerá mais tarde a «gravidade da situação militar que se vivia na Guiné no primeiro trimestre de 1974».


Em Setembro de 1973, o PAIGC proclama unilateralmente a independência - posição desde sempre defendida por Sekou Touré, mas à qual se opunha Amílcar Cabral.






BIBLIOGRAFIA



OS ANOS DA GUERRA 1961 1975
ORGANIZAÇÃO - JOÃO DE MELO - II VOL. Circulo dos Leitoes

sábado, 23 de maio de 2009

DEPOIMENTOS

Coutinho e Lima

Salvou 600 vidas mas foi castigado por Spínola

Preso por ter retirado tropa e população de um quartel debaixo de intenso fogo do PAIGC, em 1973, o coronel Alexandre Coutinho e Lima protagonizou um episódio histórico na guerra colonial travada na Guiné. A sua decisão demonstrou, pela primeira vez, a penúria das condições militares e humanas com que Portugal travava uma guerra perdida. Agora quer consultar o seu processo mas os autos estão em parte incerta. Os únicos documentos que possui - e que pela primeira vez são aqui revelados, tal como fotografias inéditas do momento da saída de Guileje - são cópias das suas primeiras declarações à Policia Judiciária Militar.

Auto de corpo de delito

Acusação: ordenou a retirada de forças sob o seu comando do quartel de Guileje para Gadamael sem que para tal estivesse autorizado; mandou destruir edifícios e inutilizar obras de defesa do referido quartel, bem como material de guerra e municies; não cumpriu a missão que lhe foi atribuída.
Nessa luminosa madrugada de 22 de Maio de 1973, a sorte dava ares de voltar a sorrir aos "gringos açorianos" e a todos os outros "gringos" que faziam a guerra em Guileje, Sul da Guiné, contra o PAIGC (Partido Africano pela Independência da Guiné-Bissau e Cabo-Verde). Eram quase seis da manha e os "gringos" iam carregados que nem burros pelo trilho do mato que ligava o quartel de Guileje ao de Gadamael, uns oito ou nove quilómetros bem medidos na retaguarda do primeiro, mas a manha levava-os para longe daquele buraco que já viam como cemitério dos seus próprios cadáveres trespassados pela metralha do inimigo.
Os soldados sedentos, famintos e, alguns, doentes, abandonavam Guileje em passo lento e levavam malas de viagem, sacos militares, armas, mochilas. Transportavam tudo o que era imprescindível para refazer a vida da tropa noutro quartel qualquer. Entre eles marchavam 600 guineenses, igualmente cheios de fome, sede e doenças, que recuavam também para a zona do aquartelamento de Gadamael, alguns dos quais já muito idosos e um deles paralítico, que teve de ser transportado as costas por soldados. A população da tabanca de Guileje levava a casa na trouxa e a família pela mão sem olhar para trás. Na retaguarda, num qualquer ponto fixo no horizonte da densa mata do Sul, só ficavam os canhões do PAIGC que, por aqueles dias, não escolhiam entre soldados portugueses e civis guineenses.
Uns e outros compunham uma coluna de gente que protagonizava um episódio histórico na guerra colonial portuguesa: as Forças Armadas comandadas na Guiné por António Spínola batiam em retirada do quartel de Guileje, o único que a tropa portuguesa deixou livre à ocupação pelo inimigo em toda a guerra colonial. O PAIGC, tolhido pela surpresa, só viria a ocupar a guarnição militar três dias depois da retirada.
A retirada de Guileje foi o culminar de um complexo processo político-militar que começou a desenhar-se na Guiné após o assassinato de Amílcar Cabral, em Janeiro de 1973. O PAIGC desencadeou então uma ofensiva simultânea no Norte e no Sul da Guiné cercando os quartéis de Guidage, junto a fronteira com o Senegal, e de Guileje, encostado a Guiné-Conacri.
Essa operação, a que chamaram "Amílcar Cabral", foi um momento decisivo na guerra que coincidiu com a utilização dos mísseis Strella, de fabrico soviético, que abateram pela primeira vez um Fiat G-91 da Força Aérea a 25 de Março desse ano. Nessa semana a "arma desconhecida, tipo foguete", como foi qualificada no relatório da ocorrência, atingiu seis aeronaves portuguesas e num dos casos morreu mesmo o piloto, tenente-coronel Brito. A maior parte destas acções aconteceu precisamente na zona de Guileje, área do Comando Operacional 5 (COP5) criado menos de seis meses antes para fazer face ao previsível agravamento da guerra na frente sul, mas para onde não foram enviados mais do que 108 homens.
A partir deste novo dado da guerra, os mísseis terra-ar, ficou muito condicionada a utilização de meios aéreos no apoio de fogo às tropas terrestres, na deslocação de feridos, no transporte logístico e na regulação de tiro da artilharia. Os efeitos do conflito passaram a ser devastadores nas fileiras portuguesas. Segundo números oficiais das Forças Armadas, só entre 13 e 27 de Maio morreram 38 soldados e 155 foram feridos na frente sul da guerra. Em todo o primeiro semestre de 1973 registaram-se 135 mortes de militares portugueses em todo o território guineense. Foram as semanas da viragem da guerra a favor de um inimigo mais numeroso, mais bem armado e preparado.
Nesse Maio de chumbo, Bissau não evacuava feridos há semanas lá das bandas do Sul. Os aviões não se arriscavam a um voo que podia ser o último. Em Guileje, com a moral arrasada, os soldados não tinham nem água, nem comida, nem munições, o inimigo atacava a 500 metros, ou menos, do quartel. Ficar ali para cativeiro ou morte certa nem pensar, antes marchar em retirada. Ainda por cima, naquela época do ano, o Sul da Guine submergia com a intensidade das chuvas e uma parte do território estava intransitável.
Nos dias anteriores à retirada, as bombas do inimigo abatiam-se sobre o quartel e dele quase nada restou de pé. Ficaram as orações dos "gringos açorianos" inscritas nas poucas pedras que sobravam: "Santo Cristo dos Milagres nesta capelinha oramos para sempre sorte dares aos gringos açorianos." Ou as dos "Piratas de Guileje", uns e outros da companhia de cavalaria 8350, estacionada no Sul entre 72 e 74.

Restaram as orações inscritas nas poucas pedras : "Santo Cristo dos Milagres oramos para sempre sorte dares aos gringos açorianos"

Os RPG7 da guerrilha rebentavam no ar e caiam em chuveiro sobre o quartel, deixando marcas de destruição em todo o lado. Nos seis abrigos amontoavam-se soldados e população. Do dia 18 em diante, até à evacuação, muita fome ali se passou porque os flagelantes do PAIGC foram praticamente incessantes.

Minhas declarações em 28 de Maio de 1973

“Durante a manhã (21 de Maio) tinha havido um ataque próximo em que predominaram os rebentamentos de RPG. Ao principio da tarde, as mulheres, desesperadas com falta de água, foram a bolanha (cerca de 500 metros do quartel), tendo sido flageladas pelo IN com RPG e imediatamente recolhidas pelas NT que foram em seu socorro. A Força Aérea que apareceu a apoiar, após o ataque das 15h15 às 16h30, o mais intenso de todos e o que provocou um morto e muitos danos materiais, foi informado que o quartel estava sem transmissões, tendo prometido ir lá de noite, se possível, e no dia seguinte, logo de manhã."

Ou ficava e a companhia era Chacinada ou recuava. "Não fui pressionado por ninguém e parti do princípio que a minha vida militar acabava ali”

A base dos guerrilheiros era em Canjifara, Conacri, o que permitia ao PAIGC uma grande actividade na região, que se intensificou a partir do momento em que a artilharia portuguesa, até aí a utilizar morteiros de 11,4 milímetros, mudou para os obuses de 14 milímetros. A regulação de tiro com os de 11,4 milímetros tinha sido comprovadamente mais eficaz, mas estes morteiros acabaram e não foram substituídos por outros de características idênticas. Portanto, para lá do fogo de artilharia dos RPG7, os guerrilheiros passaram a fazer emboscadas nas proximidades do quartel. O que foi uma machadada no moral das tropas, que andavam há meses a acumular a realização de obras imprescindíveis no aquartelamento - criado em 1964, mas nunca chegou a ter sequer uma segunda protecção de arame farpado - com a actividade operacional, acabando esta por se ressentir.
É neste cenário que o então major Alexandre Coutinho e Lima decide bater em retirada, depois de intensas movimentações nos últimos dias a pedir reforços de tropas especiais que nunca chegaram. Assim que chegou a Gadamael, nessa manhã de 22 de Maio, foi imediatamente preso e acusado de ter cometido um crime militar ao ordenar a retirada de forças sob o seu comando sem autorização superior. Também mandou destruir edifícios e inutilizar obras de defesa do quartel que comandava, material de guerra e munições. A justiça militar imputou ao major uma falta grave: não ter cumprido a missão que lhe foi atribuída pelo comandante-chefe das tropas portuguesas na Guiné, António Spínola, e pagou por isso com um ano de prisão, que só viria a ser interrompido por uma amnistia nos primeiros dias a seguir ao 25 de Abril de 1974.
Na versão seca do formalismo da linguagem militar, o major não cumpriu a missão que lhe foi atribuída. Mas, para as mais de 600 pessoas cercadas pelo fogo dos guerrilheiros independentistas, a decisão do agora coronel reformado Coutinho e Lima salvou-os de morrer no inferno de Guileje.
Para essas pessoas e para milhares de soldados que viam a derrota e a morte a aproximar-se nas frentes de guerra da Guiné, o coronel Coutinho e Lima foi um herói, que teve a coragem de decidir de acordo com a sua consciência. Mas ainda hoje é um homem perplexo com a actuação de Spínola neste processo e, em concreto, pela diferença de tratamento que deu as duas situações mais dramáticas naquela guerra.
Ao cerco de Guidage, a norte, Spínola respondeu com reforços imediatos e um ataque de comandos à base do PAIGC em Kumbamory, em território senegalês, uma acção que veio aliviar a pressão do PAIGC sobre Guidage. Já em relação a Guileje, Spínola nunca autorizou um reforço de homens e meios operacionais, deixando a guarnição abandonada à sua sorte, acabando também por não conseguir evitar a desgraça de Gadamael, onde o PAIGC atacou entre as 14h00 e as 18h00 do dia 31 de Maio, bombardeando o quartel com mais de 700 granadas e provocando cinco mortos e 14 feridos, numa acção que foi apenas o inicio de intensos flagelamentos que prosseguiram nos dias seguintes, causando um total de 24 mortos e 147 feridos.
Trinta e um anos depois da retirada do quartel de Guileje, as Forças Armadas ainda lidam mal com o episódio. O único quartel português abandonado pelas tropas coloniais é um episódio que representa uma espécie de pedra no sapato do Exército e das Forças Armadas em geral, que transformou o seu principal protagonista num rosto incómodo tanto para as hierarquias como, aparentemente, para os próprios militares do Movimento das Forcas Armadas (MFA).
Para os militares de Guileje, o pesadelo começou a desenhar-se a partir do dia 10 de Maio, ainda sem o perceberem. A melhor descrição da situação militar ali vivida é feita pelo próprio Spínola, que a 11 de Maio se desloca de helicóptero a Guileje e, numa comunicação às tropas, fez saber que se esperava um agravamento da situação. Ficou claro que a Força Aérea não faria operações de rotina como ate aí. Deixou, porém, a garantia de que, em momentos de combate mais sérios, os aviões voariam mais alto e utilizariam bombas mais potentes no apoio de fogo.
O transporte de feridos muito graves seria também assegurado. Palavras vãs, tal nunca aconteceu.
Um dia antes da visita, a vida corria com alguma normalidade no aquartelamento de Guileje. O único facto anormal era dado pelo desaparecimento do miliciano Alui Bari, que saíra de espingarda as costas dizendo que ia à caça, mas não voltou mais. Ao fim de um par de horas, começaram a sair grupos de patrulhamento na estrada de Mejo com o objectivo de tentar encontrar o miliciano Bari, que, admitia-se, podia ter-se perdido ou sido mordido por uma cobra.
Alguns patrulhamentos depois, já a 12 de Maio, porém, uma mina rebenta na estrada do Mejo e morrem dois comandantes de secção da milícia, o que afecta as tropas, sobretudo do contingente guineense e da população, onde os dois homens eram vistos como líderes.
No dia 18, dois grupos de combate que realizavam trabalhos de detecção de minas e instalação de um sistema de segurança para uma nova operação de reabastecimento, junto ao cruzamento da estrada Guileje-Gadamael, foram atacados por mais de 100 guerrilheiros emboscados. Das sete às oito da manha os soldados portugueses e os milicianos guineenses ao seu serviço estiveram debaixo de intenso fogo de metralhadora, armas automáticas e morteiros RPG. O balanço final foi dramático: dois mortos, nove feridos graves. Mais tarde, um destes feridos, um cabo, vem a morrer.
Tinha sido pedido apoio de fogo aéreo a Bissau, que não foi concedido por falta de condições meteorológicas. Aos pedidos de deslocação dos feridos foi respondido que as baixas deveriam ser levadas para Gadamael e daí para Cacine por via fluvial, o que não aconteceu por já não haver maré que permitisse o transporte.

Adivinhava-se um morticínio. Os soldados começaram a perceber que estavam entregues à sua sorte. O major Coutinho Lima enviou uma mensagem para Bissau a pedir a deslocação de um delegado a Guileje para analisar o problema dos apoios e efectivos para as colunas de reabastecimento. A resposta é negativa.
Às 16h00 ainda do dia 18 colocou-se a necessidade de reabastecer a unidade de água, num local situado a quatro quilómetros do quartel. O grupo de combate que habitualmente fazia segurança a esta saída manifestou-se relutante em sair do quartel. Só o fez quando o próprio Coutinho e Lima saiu à frente do grupo.
Limitei-me a responder que me preocupava mais com a vida dos meus homens e da população do que com os altos valores da pátria.

A operação decorreu sem problemas mas durante essa noite regressou o fogo inimigo. O quartel foi bombardeado pela noite dentro, em oito momentos diferentes; todos os rebentamentos de obuses ocorreram dentro zona de arame farpado. Compreenderam então que a regulação de tiro da artilharia do PAIGC era feita a partir de informações prestadas pelo miliciano Bari, que tinha desertado para o inimigo. Era a primeira vez que o inimigo acertava no quartel.
Na manhã seguinte, os militares portugueses contaram 85 rebentamentos no interior do quartel. Coutinho Lima parte nessa manhã com um grupo de combate para Gadamael e daí para Cacine, para assegurar o transporte dos feridos e do morto, mas também na esperança de "encontrar alguém" do Comando-chefe a quem pudesse expor a situação. Ao mesmo tempo, o drama adensava-se em Guileje: o inimigo passou todo o dia 19 a bombardear o quartel.
Coutinho Lima só consegue falar com a Repartição Operacional na madrugada de 20 e pede que Bissau envie para Guileje uma companhia de tropa especial (comandos ou pára-quedistas), viaturas e estivadores para assegurar o reabastecimento. Volta a pedir autorização para se deslocar a Bissau, o que acontece no dia 21. Aí, expõe a situação a Spinola e pede, de novo, reforços. O comandante-chefe dá-lhe uma resposta negativa quanto ao reforço de uma companhia de tropas especiais, retira-lhe o comando e entrega-o ao coronel Rafael Durão.
Coutinho e Lima é mandado de regresso a Guileje na qualidade de 2° comandante do COP5. Chega a Guileje ao, fim da tarde do dia 21 e o quadro com que se depara é devastador: um furriel morto, depósitos alimentares destruídos, celeiros de arroz a arder, população refugiada dentro do quartel, falta de água e medicamentos, antenas de transmissões de rádio destruídas, poucas munições, abrigos e valas de defesa atingidos, centenas de rebentamentos dentro do quartel.

Minhas declarações em 23 de Agosto de 1973

“A estadia nos abrigos era praticamente insuportável, pois neles se encontravam, além das NT toda a população (homens, mulheres e crianças, cerca de 500 pessoas). Houve vários desmaios, onde o calor era imenso e o cheiro nauseabundo. Após as saídas do fogo IN [Inimigo], os rebentamentos demoravam cerca de 3 segundos só dando tempo ao pessoal para se deitar. De algumas vezes não se ouviram as saídas e houve vários rebentamentos no ar, que não eram de RPG; muitas granadas eram também perfurantes, devendo ter sido uma destas que provocou a morte do furriel, bem como outra que abriu uma brecha, de lado, num dos abrigos, ficando a armação de ferro à mostra. Todo o pessoal estava arrasadíssimo, não só física como psiquicamente, pois há cerca de 72 horas que o quartel estava a ser continuamente flagelado. Com a deserção do miliciano Aliu Bari, a população estava alarmadíssima porque até ai o Inimigo não sabia onde eram os campos de arroz do pessoal de Guileje, não conhecia o trilho da população entre Gadamael e Guileje, nem tão pouco sabia onde era o poço da água onde se fazia o reabastecimento, mas agora passava a ter conhecimento, através do referido desertor, de tudo isto."
O medo estava instalado nos abrigos de Guileje. Mas também a fome, a sede, a doença. O inimigo estava a menos de 500 metros do quartel a acertar o fogo com homens empoleirados nas árvores. A descrença era total e já ninguém esperava reforços de lado nenhum. Batiam as 21 horas do dia 21 de Maio quando Coutinho e Lima mandou reunir todos os oficiais e, depois de analisada a situação, decidiu retirar de madrugada para Gadamael pelo trilho da população. De imediato elaborou uma mensagem em que pedia autorização para retirar. Foram improvisadas umas antenas, mas a mensagem nunca chegou a seguir, apesar das tentativas que duraram toda a noite. A última que seguira fora no dia 21, as 14h15, a dizer "Estamos cercados por todos os lados.
Três décadas depois, Coutinho e Lima pergunta-se a si próprio que outra coisa poderia fazer: "Tinha-se perdido muito tempo. Mesmo que tivéssemos conseguido comunicar para Bissau naquele dia e tivessem decidido enviar reforços, as tropas não chegariam antes de três ou quatro dias, espaço de tempo que nunca conseguiríamos aguentar naquelas condições. Antes disso, o inimigo completaria o cerco poderosíssimo que estava a fazer com a consequente captura ou aniquilamento de toda a guarnição militar e população."
Ou ficava e a sua companhia era chacinada e o que restasse dela apanhado à mão pelo PAIGC ou, pelo contrário, recuava para Gadamael de imediato, jogando no efeito surpresa. Tomada a decisão de partir, foi elaborado um plano de destruições e inutilizações de material que não pudesse ser utilizado pelo PAIGC: minas Claymore, material de criptografia, incluindo as maquinas, arquivos, equipamento de transmissões, obuses, viaturas e armamento pesado. "Não fui pressionado por ninguém para retirar e parti do principio que a minha vida militar acabava ali", diz Coutinho e Lima.

Minhas declarações em 24 de Agosto de 1973

"Entre todos os factores que me levaram a decidir pela retirada, avulta a missão de defesa da população, cerca de 500 pessoas (...) [que] aceitou de bom grado a ordem para se preparar para seguir para Gadamael, não tendo havido nenhuma manifestação de pesar - ”choro” -, quer quando foi iniciada a retirada, quer na chegada a Gadamael."
Deviam ser umas quatro da tarde quando a coluna entrou na parada do quartel de Gadamael-Porto. Coutinho e Lima é preso e enviado para Bissau, para a fortaleza de Amura, comando militar da Guiné. Não iria esperar muito até sentir a ira de Spínola, que o transfere para o depósito de adidos no aquartelamento de Brá com ordens inabaláveis: encerramento num quarto em regime de incomunicabilidade total e o vencimento reduzido a metade. Ali fica um mês e só uma consulta de psiquiatria altera as condições da sua prisão: passa a receber visitas, tem licença para se entreter na horta da guarnição e ler jornais.
Todos os requerimentos que fez para poder dar explicações e aulas de Educação Física foram indeferidos pelo punho do próprio Spínola. Nessa fase, lia, fazia paciências com cartas, escrevia. Começou a perceber então que a sua situação gerava entre os militares um grande movimento de solidariedade. Não tinha dinheiro para contratar um advogado e houve uma quotização entre os oficiais, que asseguraram os 50 contos necessários para pagar a sua defesa ao advogado Manuel João da Palma Carlos. como é assegurado o subestabelecimento da causa num conjunto de mais quatro advogados, todos eles oficiais milicianos a prestar serviço na Guiné: Barros Moura, Correia Pinto, Sacadura Bote e Maia Costa. Estes oficiais chegaram a ser ameaçados por Spínola com o envio para a frente de combate por se terem disponibilizado a defender o "presumido delinquente".
Depois de libertado em Maio de 1974 é colocado na Academia Militar, no gabinete de estudos, e recebeu a metade do vencimento que lhe tinha sido retirado. Nunca chegou a ser julgado, mas não requereu qualquer reparação por danos morais, já que era sua profunda convicção a inutilidade da acção enquanto Spínola liderasse a JSN.
"Acho que nunca fui prejudicado na progressão militar, mas na parte final, quando tinha de fazer um ano de comando para a promoção - devia comandar uma unidade de artilharia -, fiquei com a sensação de que andaram a passar a bola de um lado para outro", diz hoje, passados 30 anos.

Minhas declarações em 25 de Agosto de 1973

"Relativamente à acusação de não ter cumprido a missão que me foi atribuída, solicito informação sobre qual parte da missão deixou de ser cumprida. Se se pretende referir a alínea ‘garante a defesa eficiente dos aglomerados populacionais e o socorro em tempo oportuno dos reordenamentos da sua zona’, declaro que defendi o estacionamento de Guileje até à altura da retirada, por considerar a posição absolutamente insustentável."
O tempo foi passando na vida de Alexandre Coutinho e Lima e as más memórias desvanecendo-se. Mas o mistério da recusa de conceder um reforço militar a Guileje permanece. "Nunca mais falei com Spinola sobre isso!" De há 31 anos para caso ficou o silêncio.

BIBLIOGRAFIA

José Freire Antunes – A Guerra de África (1961-1974) - Circulo dos Leitores – Vol. I e II

sexta-feira, 22 de maio de 2009

NOTÍCIAS



Dados da OMS
Guiné-Bissau: Guineenses morrem mais cedo

Genebra – As estatísticas da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelam que entre no universo dos países lusófonos, a Guiné-Bissau é o que tem a menor esperança de vida.
As últimas estatísticas da OMS indicam que todos os países lusófonos subiram no ranking da esperança média de vida para o sexo masculino, entre os anos de 1990 e 2007. Na Guiné-Bissau, expectativa de vida nos homens aumentou cinco anos, de 41 para 46, e nas mulheres dos 47para os 51 anos, ao passo que Moçambique melhorou três anos no sexo masculino, de 44 para 47 anos, mas no feminino baixou de 49 para 48 anos. São Tomé e Príncipe manteve-se nos 59 anos nos homens, ao passo que nas mulheres, o valor cresceu de 62 para 63 anos.
Para Cabo Verde, as estatísticas revelam que a esperança média de vida subiu apenas um dígito nos homens, de 65 para 66 anos e dois para as mulheres, passando de 69 para 71 anos. Angola registou a maior ascensão, acrescentando mais 13 anos de expectativa devida ao nascimento, passando de 38 para 51 anos, seguida de Timor Leste que viu a sua expectativa de vida nos homens subir 10 anos. A razão apresentada para o grande aumento em Angola foi o fim da guerra civil e ainda o alargamento dos cuidados de saúde.No Brasil a expectativa de vida teve um aumento de 63 para 70 anos no sexo masculino, e de 70 para 76 nas mulheres. Portugal revelou-se o país com maior esperança de vida tendo passado de 71 para 76 anos de vida no sexo masculino e dos 77 para os 82 anos no feminino

NOTÍCIAS


ENTREVISTA
"Não me arrependo de nada"
Jaime Neves

Texto de Jerónimo Pimentel
Fotografias actuais de António Pedro Santos

Jaime Neves foi um dos militares mais polémicos pós-25 de Abril. Conotado com a direita, a esquerda militar nunca lhe perdoou o 25 Novembro e a sua intervenção, essencial para pôr fim processo revducionário. Trinta e quatro anos depois volta baila com a sua promocção a general. Numa entrevista vida, recorda os momentos mais dificeis deste conturbado período histórico.

A Versão oficial de 25 de Novembro está correcta ou há episódios que ainda não foram contados?
Está correcta.
Não faltam episódios?
Ha alguns que talvez não tenham sido devidamente contados. Lembro-me que no dia 25 de Novembro tivemos um grande problema ao querer que o general Costa Gomes assumisse o papel de chefe das Forças Armadas. Ele não queria. Houve uma reunião em Belém em que estive com o Eanes, o Rocha Vieira e outros e fomos lá falar com ele. O general Costa Gomes era um homem muito inteligente mas era muito hesitante. Depois, muito a medo, lá tomou posição. Nós não fariamos nada se ele não se pusesse à frente daquilo.


COM O EANES tive uns contactos muito frios. De 1979 para cá devemos ter falado para aí umas cinco vezes

Mas o 25 de Novembro precipita-se por causa das ocupações de quarteis por parte da esquerda militar.
Claro, mas nós estavámos preparados para isso. Ha um episódio a que não se dá o verdadeiro relevo. No dia 24 de Novembro chegou ao Tejo, vindo de Luanda, o batallão de paraquedistas comandado pelo brigadeiro Almendra. E uma delegacão dos para-quedistas foi esperar o barco à entrada do Tejo. Como eles tinham o armamento todo, quiseram convencê-los a alinhar com os da base de Tancos. Eles disseram que não e seguiram para base de Cortegaça. Se esses mil e quinhentos homens tivessem alinhado, o desfecho do 25 de Novembro poderia ter sido diferente.
Como explica que Otelo Saraiva de Carvalho tivesse desistido de intervir no dia 25 de Novembro?
Nós tivemos uma reunião na noite de 24 de Novembro no quartel-general para o tentar convencer a desistir Ele não ficou convencido mas abandonou o terreno. E, no dia seguinte, foi preso.
Como comenta a afirmação de Pires Veloso de que só ele, Lemos Ferreira e Jaime Neves é que tiveram uma acçao relevante no 25 de Novembro?
Respeito a opiniao das pessoas, e a dele. Isso e uma critica a Eanes. Eu era muito amigo do Pires Veloso e um dia disse-lhe: “Não morro de amores pelo Eanes, mas o ódio que você tem ao homem é visceral”. Quandi hove o 25 de Novembro, no relatório finel, o Eanes não referiu o Pires Veloso. Julgo que é isto que o magoa.


Já reatou relações com o general Eanes?
Vamos lá ver. Somos do mesmo curso, estivemos na Índia juntos, estivemos em Angola e Moçambique juntos e até namorámos com duas irmãs durante dois anos e nenhum de nós casou com elas. Mas em princípio de 1979 ele fez uma reunião no forte de Catalazete com 15 pessoas, dos quais militares eram 10 ou 12. Ele informou-nos de que estava a ser muito pressionado para se recandidatar a Presidente da República mas que não queria. Eu disse-Ihe: 'Tu é que sabes'. A reunião terminou, tendo como conclusão de que ele não se iria recandidatar. Passados 15 dias vejo o Eanes no estádio da Luz, ele que não gostava de futebol. Aí pensei: ele não gosta de futebol e está aqui? Só pode ser para se recandidatar...
Aí não teve duvidas...
Nao. E um sábado de manhã, nunca mais me esqueço, o Eanes telefona-me para casa a dizer que queria falar comigo. Eu ia para o Porto e ele disse que me punha lá de avião se eu perdesse o comboio. Cheguei ao palácio de Belém, junto à escadaria que dá para a Calçada da Ajuda. Comecei a subir e ele disse para eu esperar que vinha ter comigo. A meio daquela escadaria, às 7 horas da manhã, ele diz-me: 'Se eu concorrer e o Soares Carneiro também, em quem é que votas?'. O maior conselheiro dele era o Soares Carneiro porque era um militar com experiência politica. Eu disse-lhe que se o Soares Carneiro era o melhor conselheiro, como ele dizia, era nele que votava. Sabe qual foi o primeiro acto que o Eanes fez na manhã em que tomou posse?
Não.
Demitiu o general Pedro Cardoso que era chefe de Estado-Maior do Exército e que tal como eu, tinha apoiado Soares Carneiro.
Voltou a falar com Ramalho Eanes?
Tive uns contactos com ele muito frios. Desde 1979 para cá devemos ter falado para aí umas cinco vezes.
E nada mudou agora que Ramalho Eanes propôs a sua promoção?
Nada mudou.

MILITARMENTE fiquei onde quis, fiquei a comandar o Regimento de Comandos. Nunca fui um homem político

Todos os seus companheiros do 25 de Novembro acabaram por ter uma projecção muito mediatica, por que ficou sempre um pouco na sombra da historia?
Eu, militarmente, fiquei onde quis, fiquei a comandar o Regimento de Comandos. Numca fuiu m homem político.
Mas tomou posições políicas, interveio no 16 de Março e no 25 de Abril de 1974. Quando regressou da sua última comissão em Moçambique já achava ser preciso mudar o estado das coisas?
Exactamente. Eu comandava em Moçambique o batalhão de Comandos, que era talvez a maior umidade do exercito português Tinha sob o meu comando mais de 30 capitães. E sentia, nessa altura, a insatisfação.
Mas em Moçambique tinha conversas politicas com os seus capitães?
Sim, eles faziam umas reuniões e vinham-me contar tudo Estava a par do que se passava. As insatisfações eram de varios tipos. Havia capitães que estavam cansados de ter tantas comissões, outros acabavam por ter problemas familiares muito complicados por estarem em África. A malta ia para la ja um bocadinho obrigada.
No 16 de Março qual foi a sua intervenção?
A 15 de Marco, à noite, acompanhei o major Monge e o tenente-coronel Casanova Ferreira ao regimento de Cavalaria 7 para conseguirmos que o comamdante alinhasse connosco e com o anuimento do general Costa Gomes.
Ele acompanhou-os?
Não, manteve se firme e não acompanhou.
E depois?
Quando regressáva-mos capotámos em Monsanto. Endireitámos o carro, e o Casanova Ferreira disse que seguiam para as Caldas e eu fiquei de ir lá ter quando conseguisse transporte. Mas não consegui e não fui.
E no dia 25 de Abril o que é que fez?
Arranjei um grupo de comandos, oficiais e sargentos e algumas praças, éramos para ai uns 15 a 20 militares. Fomos ter com o Otelo que nos deu como missão: prender três comandantes de unidades. Mas não fui buscá-los por uma razão muito simples: vigiámos a casa dos três e estava tudo muito calmo. Era difícil intervir sem provocar um grande alvoroço que poderia denunciar que alguma coisa se estava a passar.


NO 25 DE ABRIL TIVE o meu primeiro choque quando chega uma série de malta da Margem Sul com bandeiras que dizem 'nem mais um homem para as colónias'


O que fez então?
Fui para o Terreiro do Paço e esperei pela coluna de Santarém Ainda vi o buraco por onde fugiu o ministro do Exército para o edifício da Marinha. Entretanto, veio o Salgueiro Maia e aí tive o meu primeiro choque Quando estamos no meio da placa cenral, chega uma série de malta da Margem Sul, com bandeiras que dizem 'Nem mais um homem para África', 'Abaixo o fascismo'. E eu interroguei-me: isto foi feito com tanto secretismo e já há bandeiras?
Está a dizer que havia uma articulação com o PCP?
Tinha que ser, era o único partido organizado e nós éramos uma cambada de inocentes.
Quando vê as bandeiras e os civis o que pensou?
Que estavámos a ser enganados.
E a seguir o que fez?
Segui para a Penha de França para ocupar o quartel. Cheguei ao portão principal e saiu de lá um gajo alto com uma pistola que me diz: 'Senhor major para entrar aqui só por cima do meu cadáver'. E eu disse: 'Por cima de quê? Oh amigo, vai-te embora que eu não brinco com essas coisas'.
E ele foi?
Foi,
E depois de tomar o quartel da Penha de França?
Fiquei nessa noite no quartel e no dia seguinte recebi ordens para ir com esse pessoal e o de uma comparhia da EPI de Mafra para a Academia Militar. Fiquei la sediado e fomos uma espécie de bombeiros. Deram-me mais carros de combate para uma força dissuasora e eu passei até ao dia 4 de Julho permamentemente a resolver problemas.

SPINOLA mandou-me ir esperar o dr. Álvaro Cunhal ao aeroporto com todas as honrarias

Quais problemas?
Levei os presos do Limoeiro para o Linhó em chaimites, iam seis de cada vez. Quando cheguei ao Limoeiro os presos disseram que só me recebiam a mim. Entrei lá para dentro sózinho. Estavam todos no refeitório e eu perguntei o que e que eles queriam. Queriam contar a história deles. Fui buscar quatro escriturarios e disse:”cada um conta a sua história e eu levo-as e entrego ao ministro da Justiça. Querem? Quiseram e estive lá até às cinco da manhã. Depois, como a GNR e a PSP tinham perdido todas as forças, as pessoas em Lisboa queriam vingar-se e fechavam os polícias nas esquadras e eu tinha que lá ir libertá-los.
De quem recebia ordens?
Recebia ordens do Costa Gomes conhecia-o bem, tinha estado com ele em Moçambique quando era comandante militar e eu estava nos Comandos e recebia ordens do Spinola. E o Spinola chamou-me a 29 ou a 30 de Abril e disse-me: ‘Vais ao aeroporto esperar o dr Alvaro Cunhal com todo o pessoal, com toda a honraria, recebe-o como deve de ser e vais trazê-lo para aqui’.

Já tinha ouvido falar do Cunhal antes do 25 de Abril?
Já, mas pouco. Ele não estava cá.
E depois o que se seguiu?
Cumprimentei-o e disse-lhe que tinha ordens do general Spinola que pedia para me acompanhar para o levar ao palácio da Cova da Moura. E quando iamos a sair aí é que eu tenho um espanto.
Porquê?
Porque olho para trás, quando estavámos a chegar a Segunda Circular e vejo os carros militares todos cheios de gente com bandeiras vermelhas e aí eu disse: 'Estou fodido'. Dei ordens pelo radio para os meus homens terem calma e nao mexerem nas armas.
Uma grande tensão?
Foi pior de outra vez. O Costa Gomes disse-me para eu ir buscar um cubano, o célebre capitao Peralta, que estava no hospital da Estrela e que os gajos da extrema-esquerda queriam tomar o quartel para o tirarem de lá. Perguntei-lhe se podia usar de todos os meios. Só ao fim de meia hora é que escreveu a meu pedido uma ordem, mas frisando que só em caso extremo podia usar as armas. Lá fui e, pela primeira vez na mmha vida, assustei-me e vi-me aflito.
O que se passou?
É que quando eu dou a volta no Largo da Estrela vejo um mar de gente, e os malandros de repente atiram-se todos ao chao e não me deixam andar Eu vou devagarinho e vi os gajos a minha frente a fazerem amor...Tive que andar a levantá-los um a um e lá consegui encostar os carros todos ao fim de duas horas. Sei lá o que eu fiz mais... Fui para a TAP 12 dias para os pôr a trabalhar, fiz uma serie de coisas.



NÃO SOU DEFENSOR da descolonização possível de Mário Soares. Pensei sempre que devíamos controlar daqui o processo




Um dia disse que a 'o abandono de África é o pior legado da revolução de Abril: Se tivesse percebido antes tinha participado?
Tinha sérias duvidas. Nao sou defensor da descolonização possível de Mario Soares. Pensei sempre que nós deviamos controlar daqui. Era contra o Portugal uno inalienável e indivisível. A Guiné estava a perder-se. Eu dizia para se deixar a Guiné e agarrar Angola e o pessoal que estava na Guineé ia para Moçambique, que também estava mal.
A sua posição era de que o processo de independência devia ser lento e controlado por Portugal?
Sim, controlado por nós, a nossa tropa controlava.
E na altura havia condições políticas para isso, com enormes manifestações a gritarem ‘nam mais um doldado para as colónias’?
Vamos lá a ver... Se cá tivessem tomado medidas tinhamos agarrado o processo. Não fizemos nada, pelo contrário. Houve toda uma técnica que ninguém esperava que se notasse.
Qual?
Quando colocaram os cravos nas armas não foi por acaso.
Porque foi então?
Para neutralizar. Eu nunca deixei que o fizessem para poder empregar todos os meios.
Mas havia medo que, caso os militares utilizassem a força, os civis se revoltassem...
Há maneiras de o fazer. Lembro-me que já estava nos Comandos e os deficientes foram sequestrar o Governo manifestando-se em cadeiras de rodas. Esqueceram-se que havia quem fosse mais esperto do que eles. Eu fui num jipe civil e vi a manifestação. Fui ter com os meus condutores das duas companhias de Comandos e disse: ‘Vamos descer em segunda e quero o máximo de rateres’.Eles não eram nada deficientes e, quando viram as chaimites, levantaram-se e desataram a correr: Largaram tudo.
Largaram as cadeiras de rodas?
Largaram tudo. Eu carreguei duas camionetas com as cadeiras de rodas e as proteses para a Amadora. Fiz um aviso na rrádio a todos que as quisessem. Em 15 minutos levaram tudo.
É sabido que foi crítico do caminho que processo tomou. Para si quem foram os responsáveis?
O general Spinola foi o grande responsável, quando resignou em Setembro e foi para lá o Costa Gomes... A desilusão foi muito grande. Eu volta e meia ia a Belém ele chamava-me. E quando se falava no Partido Comunista ele dizia para se fala baixo. Quando começaram os problema com Otelo eu disse: 'Oh meu general prende-se o Otelo'. E ele logo: ‘Fale baixo’. Ele tinha medo. Quando foi a chamada ‘manifestação silenciosa’ ele foi-se embora porque teve medo.
Mas no 11 de Março Spinola nã tentou aliciá-lo?
Tentou. Ele no 11 de Março telefonou-me ao meio-dia, e perguntou se eu já tinha a minha missao. Respondi-lhe que não tinha misso nenhuma.
Naquela altura o que mais o marcou?
Foram as grandes manifestações que aconteceram em Lisboa porque nós não estávamos preparados para isso.
Mas receou o quê?
Nao sabia como resolve aqueles problemas. Por exemplo, o MRPP punha os ‘borrachos’ à frente e ela metiam-se com os soldados. ‘Oh filho e tal...’. Tentavam seduzi-los e a malta fraquuejava. Foi a primeira vez que a tropa enfrentou manifestações civis.
Nessa altura, em que já tem reservas sobre o curso das coisas como eram a relações com os seus companheiros de armas?
Com o Costa Gomes fazia faisca, porque ele era um homem diabólico. Veja so o percurso dele. É condecorado em Angola com a mais alta condecoração da PIDE em 1973, o único militar que eu conheço, e um ano depois, em 1974, virou à esquerda. Tive reuniões com os militares do COPCON e o Otelo tinha este país na mão. Mas era um homem sem coerência e houve uma altura que se convenceu que era bonito e sedutor. O COPCON chegava a ter à entrada uma bicha de mais de 1.000 pessoas. Um dia perguntei a uma senhora onde ia. E ela disse: ‘O general Otelo prometeu-me um apartamento’. Eu chegava lá dentro e dizia: 'Oh Otelo, como e que tu fazes isso? Para onde é que queres levar este país'?.
COM VASCO GONÇALVES falei só para aí duas vezes. Encontreio no corredor de Belém e ele gritou pelos guarda-costas
E como foi o seu relacionamento com Vasco Gonçalves?
Falei só para ai duas vezes com ele. Encontrei-o em Belém no dia 20 e tal de Novembro de 1975 porque o Costa Gomes tinha-me mandado chamar Encontrei-o no corredor e ele começou a gritar pelos guarda-costas. Eu ri-me.
Mas havia uma grande desconfiansa em relação a si por ser mais conotado com a direita do que com a esquerda.
Costumo dizer: nasci em 1936 e formei-me em 1956. Nós militares, infelizmente, éramos politicamente muito mal preparados, mas éramos todos muito parecidos. Depois surgiram uns que diziam que eram de esquerda. Mas olhe, esses gajos que se rotularam de esquerda eram uma merda como militares.
Todos?
Bem, todos nao.
Chegou a ser saneado dos Comandos.
Foi no dia 31 de Julho de 1975. Nesse dia tudo estava muito agitado porque tinha chegado a 6ª Esquadra americana. Eu cheguei à messe dos sargentos e perguntei o que se passava: ‘Meu major é que vema a 6ª Esquadra para conquistar isto’, disseram-me. E eu disse:’Vocês são parvos, não vem nada’. Às 10 horas da noite fui-me deitar, eu morava na Reboleira, mas pressentia que ia acontecer alguma coisa. Às quatro da manhã toca o telefone e alguém diz: ‘É do PSD da Amadora. O Partido Comunista tomou o seu quartel e eu estou-lhe a oferecer duzentos homens mas precisamos de armas’. Perguntei quem falava e ele disse que não podia dizer e desligou. Logo a seguir liga-me o meu 2º comandante, major Lobato Faria, que diz que estava preso, mais um grupo de oficiais sargentos. E diz que os ocupantes Ihe tinham pedido para me informar de que já não era o comandante. Eu tinha um Ford amarelo que me tinham emprestado. Cheguei ao pé do quartel, parei carro e fui a pé e fiquei à Porta de Armas. Estavam duas chaimites a tramcarem a entrada com mecânicos lá dentro. Dizem-me, que eu já não sou o comandante e que estavam à espera do Otelo que nessa noite tinha chegado de Cuba, e que tambem vinha Vasco Lourenço que, entretanto, chegou mas não o deixaram entrar. E eu a assistir àquilo tudo. Chega o Otelo, está lá um minuto e dezoito segundos a falar com quatro militares. Eu disse-lhe que queria que fossem libertados todos os que estavam presos. Fui com os meus militares para o EstadoMaior do Exército reconstituir o que se tinha passado. O Otelo julgava que Ihe iam entregar o quartel de bandeja, mas esqueceu-se que o Partido Comunista ja tinha tomado conta do quartel. E então ele pensou que entre o PCP e o Jaime Neves preferiame a mim, e foi-me buscar.
Esteve saneado quanto tempo?
Três dias. Fui a um plenário a que o Otelo foi, no Regimento de Comandos, e os furrieis que tinham participado na ocupação foram ao palco e disseram que tinham estado com o Álvaro Cunhal que Ihes prometeu e às familias que Ihes pagava transportes, que Ihes pagava tudo, se algo corresse mal. Isso ficou no auto.
Colcou alguma vez a hipótese de sair do país antes do 25 de Novembro?
Nunca. A única coisa que defendi, como militar, para o 25 de Novembro, foi a hipótese de sair de Lisboa, ir para Rio Maior porque os Comandos tinham as rádios e os jornais diariamente contra nós e militarmente estavamos praticamente isolados. Éramos bombardeados de manhã à noite. Civis e militares chegaram a ir ao quartel ameaçar-nos. à segunda vez tracei uma linha na estrada e disse que abria fogo sobre o primeiro que a passasse. Nunca mais ninguem passou. A maior parte da malta com um berro desaparecia.

Quando foi contactado para a hipóte de fazerem um golpe de estado?
Durante o Verao 1975 havia reuniões com militares. Estavam o Eanes, Rocha Vieira, Tomé Pinto, Garcia dos Santos, Gomes Mota, Firmino Miguel e mais alguns civis entre os quais o Henrique Granadeiro que foi chefe da casa civil do Eanes.
E reuniam-se onde?
Em qualquer sitio. A primeira vez foi e casa do Melo Antunes, outra por cima do restaurante Galeto, em Lisboa.
Na altura tinha informações sobre estar em preparação um golpe de direita?
Nao me lembro de ouvir falar da possibilidade de um golpe da direita porque nós controlavamos tudo. Além disso, os únicos homens de direita de que tinhamos conhecimento que poderiam ser operacionais eram o Alpoim Galvão e mais uns que no Norte estavam com o cónego Melo. Nós conheciamo-nos todos, éramos camaradas, éramos militares.
Todos sabiam o que todos andavam a fazer?
Sim. Nós sabiamos que aquela direita nunca avançaria contra nós.Não era uma preocupação.
Mas tudo aconteceu no dia 25 de Novembro porque houve a ocupaço pela esquerda militar das bases de Tancos...
Exactamente. Estávamos já preparados. Mas foi uma resposta. Eu estava preparado com o regimento há uma semama. Tinha as viaturas carregadas com munições e com comida.
O que se passou quando foi tomar a Policia Militar? Houve ai um problema...
Houve. Quando vou a passar na Calçada da Ajuda, vem um tenente-coronel a correr de dentro do palácio de Belém que me grita: ‘Oh pá, o Costa Gomes deu ordens e a Policia Militar vai render-se’. E eu disse-lhe: ‘Oh pá, eu não posso fazer nada porque o meu comando deu ordens para avançar e eu estou atrasado 10 segundos’.
Quem era na altura o seu comando?
Era o Eames e os outros oficiais que ja referi.
E depois o que aconteceu?
Eu sigo para cima e quando vou a passar à frente de Cavalaria 7, estava lá a recruta, fomos atacados. Apeamo-nos rapidamente Dois dos meus homens estavam mortos e o meu pessoal queria matar duzentos. Tive que andar aos pontapés ao meu pessoal para não dispararem. Eles só choravam. Olhe que durante anos, quando faziamos manobras militares, em qualquer terra onde chegávamos as pessoas diziam-me: 'Você é que é o culpado disto porque não matou os gajos todos da Policia Militar E eu respondia: ‘Olhe lá, e se estivesse o seu filho na Policia Militar, não estaria a falar comigo agora aqui’.
A partir do 25 de Ncvembro deixa de ter intervenção?
Sim, só me dedicava à vida militar. Fico nos Comandos até passar à reserva em 1981. Tinha estado na Índia na primeira Comissão. Estive em Moçambique pela primeira vez em 1959. Em 1962 fui para Angola ate 1964, depois vou logo para os Comandos. Regresso a Angola em 1965 e em 1966 mudam-me para Moçambique, fiquei lá mais um ano e meio. Em 1968 regresso e em 1970 volto para Moçambique com uma companhia de Comandos, depois de ter estado cerca de cinco meses em Angola. Sou promovido a major em 1972 e fico em Moçambique até Dezembro de 1973.
África marcou-o muito?
Sim. Em 1973 cheguei a dizer ao meu pai que ficava em África. Eu gostava daquilo, sentia-me realizado.

GOSTAVA DA NOITE É um mundo excepcional, fazem-se amigos, inimigos, faz-se tudo

Como responde a polémica que surgiu com a sua recente promoção a general?
Nao respondo, mas há uma coisa que tem de ser dita: esta raiva que o Vasco Lourenço despeja em cima de mim sempre que pode tem duas origens. Primeiro, ele tem uma verborreia crónica, ele tem de pronunciar-se de vez em quando. Segundo, há uma coisa que ele não esquece: em 1975 eu disse no regimento que a ele nem para cabo o queria e pedi desculpa aos cabos. Ele nao tinha cate goria nenhuma...
Nasceu em Vila Real e seguiu a carreira militar porque era mais económico?
Sim, mas quando acabei o sétimo ano candidatei-me a Academia Militar e, como alternativa, tambem a Medicina na faculdade do Porto. Fui chamado primeiro para a Academia e lá fui.
E alguma vez pensou que a sua carreira militar ia levar este rumo?
Não, nunca me passou pela cabeça.
E alguma vez parou para pensar na volta que sua vida levou?
Nunca me arrependi, pelo contrário.
Por que foi trabalhar com Jorge de Brito quando saiu dos Comandos ?
Conheci-o quando ele esteve preso e tentei dar-lhe uma ajuda. Depois passei a dar-me com ele e trabalhamos juntos durante 12 amos.
A fazer o quê?
Ao Jorge de Brito arrolaram-lhe todos os bens, que eram muitos, e eu fui director daquele património. Aquilo estava tudo ocupado. Eu pus aquilo na ordem, despedi uns e bati noutros..
A seguir criou uma empresa de segurança, a 2045...
Sim, éramos seis sócios. Continua a trabalhar e tem três mil homens.
Julgo que agora já estará mais regrado uanto ao whiskies ao pnazer pela comida?
Eu gostava de beber uns copos, mas numa noite bebia apenas três whiskies era só gelo. Um refresco?
Ora muito bem...isso mesmo. Nunca me embebedava e nunca permiti que me oferecessem um whisky.
Gostava da noite?
Gostava. A noite é um mundo excepcioal, fazem-se amigos, mimigos, faz-se tudo.
Na vida fez alguma coisa de que se arrependeu?
(Longo silêncio) Não tenho veleidades de dizer que fiz tudo bem, mas não me ocorre nada de especial.