sexta-feira, 29 de maio de 2009

DEPOIMENTOS

Carlos Fabião

Milícias negras

Viveu um total de doze anos na Guiné, metade em tempo de paz e metade na guerra. Foi um dos oficiais predilectos de Spínola e fez parte do grupo de seguidores que planeou guindar o general ao poder em Lisboa. Distinguiu-se como responsável pelas milícias negras na Guiné, tropa especial que chegou a atingir 9000 elementos e a que ele atribui 60 por cento dos êxitos militares na fase final do conflito. O tenente-coronel Carlos Fabião, um dos muitos oficiais galvanizados pela metodologia e pelos sonhos quebrados de Spínola, diz que deu o seu melhor na frente de combate e não esqueceu a recusa do poder central em negociar a paz com Amílcar Cabral.
O «massacre de Pidjiguiti», em Julho de 1959 consistiu na repressão de estivadores do porto de Bissau e é um marco histórico reclamado pelo PAIGC. Carlos Fabião, que serviu seis anos na Guiné em tempo de paz, estava lá aquando dos incidentes. Fez depois a guerra em Angola durante 27 meses, entre 1961 e 1963. Voltou à Guiné, em nova comissão de 1965 a 1967. A experiência acumulada e reconhecida levou Spínola a encarregá-lo de uma tarefa especial: a chefia das tropas negras. Foi um relativo êxito.
Eu estive no Pidjiguiti, que o PAIGC transformou numa data áurea. Quando foi o incidente, em 1959, eu estava de farda branca à espera da mulher do comandante, que vinha de avião. Aquilo deu-se por uma questão de reivindicações salariais, que naquele momento nada tinham a ver com política. A CUF em Lisboa, autorizou os aumentos que eles pretendiam, mas o administrador da CUF na Guiné, que era um velho administrador português que se reformou, disse-lhes: «Vocês hão-de levar o aumento mas é quando eu quiser, e não agora!» Foi isso que provocou Pidjiguiti Não teria havido Pidjiguiti se o administrador tivesse cumprido ordem que recebeu de Lisboa. A partir daí. Pidjiguiti, tornou-se a grande bandeira deles. Nessa altura, dei a volta à Guiné para ver se havia repercussões noutros sítios, mas não havia. Depois, aquilo tornou-se uma guerra entre a PIDE e a administração, civil. A PIDE teve conhecimento antecipado do que ia acontecer, mas não avisou a administração, e o governador ficou danado com a administração porque só soube através da PIDE. Entretanto, aquilo começou a dar para o torto. O que aconteceu, na realidade, foi uma guerra entre os polícias papéis e os estivadores manjacos, duas etnias que se davam mal, apesar de serem afins. Os papéis aproveitaram a ocasião para baterem nos manjacos, que nunca estiveram do nosso lado nem do outro lado. Mas os tambores de guerra manjacos começaram a soar em Bissau - o chão dos manjacos era na parte de cima da ilha de Bissau -, a chamar os manjacos para Bissau.
Não tínhamos lá tropa branca, nessa altura, e a tropa preta era muito pouca. Eles vieram dizer-nos que os portugueses não tinham nada a ver com aquilo, porque era um ajuste de contas entre eles. Mas não podia haver um ajuste de contas dentro da cidade, porque daí até se passar ao assalto, ao massacre e ao roubo, seria um passo. Fizemos a linha de defesa de Bissau na avenida principal, que sai do palácio. Do lado do aeroporto, de onde viriam os manjacos, paciência; do lado de cá, instalámos as metralhadoras e o que tínhamos, para defendermos a população. Entretanto, o administrador da CUF, que estava muito malvisto, entrou em contacto com os manjacos e com os papéis, conseguindo levá-los ao entendimento e promovendo uma festa de reconciliação, no Altocrim. O governador ficou aflito com aquele ajuntamento de gente e disse ao fulano da PIDE para ir ver o que se passava. O fulano da PIDE limitou-se a explicar que era uma concentração de majacos e de papéis. Eu estava na parte logística do quartel-general, a trata do transporte e de outras questões, quando fui chamado ao palácio do governador. Lembro-me que o administrador entrou todo satisfeia no palácio e o governador perguntou-lhe o que é que se passava - «Nada», disse ele, «estive a faz com eles e eles reconciliaram-se. Agora, vão fazer uma festa de reconciliação.» O homem da PIDE ficou bestialmente encarnado e levou logo ali um raspanete do governador.
Em 1961 fui para Angola. Era oficial de operações e estava no comando do Batalhão 132. Depois de chegar, o batalhão foi para Quibachegar e tinha responsabilidade sobre toda a área que ia desde Quitexe até Bulatumba. Depois passámos para o Bengo e, na parte final, estivemos em Catete. A primeira parte da nossa missão em Angola consistiu essencialmente em reocupar a áreas que tinham sido abandonadas no distrito do Cuanza Norte. Eu tinha as funções normais de u um oficial de operações: fazia as ordens de operações, coordenava a parte operacional do batalhão, ajudava o comandante e, normalmente, acompanhava-o. Durante o tempo em que estive em Angola fui tirando ensinamentos e reflectindo Quando me mandaram para a Guiné, tinha duas coisas a meu favor Tinha seis anos de Guiné em tempo de paz - conhecia toda a Guiné - e os conhecimentos da guerra subversiva em Angola devido à comissão de 27 meses que tinha feito e que correu muito bem. A minha, companhia em Angola era conhecida como «a companhia dos camelos». Na Guiné, eu comandei uma companhia de caçadores, entre 1965 e 1967. Na altura era a companhia mais prestigiada da Guiné e isso fez com que eu fosse condecorado com a medalha de Valor Militar de Prata fosse promovido a major por distinção. Foi aqui que começou a ser conhecido, digamos assim, o nome de Fabião.
A companhia estava em Tite e posteriormente, na parte final, fui para Nhacra. Há muita gente que diz que houve grandes diferenças entre a guerra em Angola e a guerra na Guiné, mas eu não notei nenhuma. A guerra subversiva era igual em qualquer sítio. Para mim, que era uma máquina que subia mal mas andava bem na planície, a guerra na Guiné foi melhor, porque o terreno era plano. Apesar de na época das chuvas o terreno ser pantanoso, eu deslocava-me melhor na Guiné do que em Angola. Em Angola, na zona do Cuanza Norte, onde estive, os terrenos eram altos, muito altos, mas fazia-se quase tudo de carro porque as distâncias não permitiam andar a pé. Quando estive na Guiné, antes da guerra, caçava muito e, portanto, estava habituado ao terreno. A minha companhia era de intervenção. Havia um batalhão que cobria uma área, tinha duas ou três companhias em quadrícula e uma companhia liberta que fazia as operações. Era a minha. Fazíamos todo o tipo de operações imagináveis: operações, golpes de mão, emboscadas, patrulhamentos, rusgas. O comandante de batalhão fazia as operações, nomeava, pedia os reforços, entregava-me e eu estudava aquilo no terreno. Gostava muito de funcionar com africanos. Já vinha do tempo de paz. Tinha sempre negros de confiança que trabalhavam comigo e que planeavam as operações comigo e me informavam. A princípio, a maioria deles, estava com o nome de caçadores nativos ou milícias. Mais tarde, quando fiz a minha última comissão na Guiné, Spínola resolveu rendibilizar ao máximo esses africanos e convidou-me para ir para lá e organizar um corpo especial com esses indivíduos. Criei assim o Comando Geral das Milícias.
O comandante era eu e organizei as milícias dentro do conceito de ligar as tropas às próprias terras de onde eram naturais. Havia, por exemplo, uma tabanca que era necessário defender, e eu criava unia unidade com os homens dessa tabanca. Portanto, quando a defendiam, estavam a defender a mulher e os filhos. Eu criei isto, resultou muito bem, mas há por aí umas confusões sobre as milícias, tal como também se fazem confusões sobre a autoria do livro de Spínola, Portugal e o Futuro. Dizem que não foi Spínola que escreveu o livro, que foi outra pessoa. Eu não concordo com isso e por uma razão simples: é que Spínola não podia escrever livros e comandar tropas, fazer tudo ao mesmo tempo. Ele escreveu o livro em rascunho, mas foi dando a várias pessoas para consultar e as pessoas iam dizendo para ele tirar isto e pôr aquilo. Discutiam e ele aceitava ou não aceitava. Não considero correcto vir agora dizer que escreveram o livro porque deram uma opinião sobre um ou outro capítulo. Isto vem propósito do corpo de milícias. Eu criei o corpo de milícias, fiz os estatutos, mas fi-lo segundo um conceito que me foi dado pelo general Spínola, que me disse para criar uma unidade com toda aquela gente, de maneira a poderem dar maior rendimento. Se ele, Spínola, não tivesse a ideia e se não me tivesse dado instruções, eu não teria, por mim próprio, capacidade para fazer isso. Pensei, li os documentos antigos, do tempo da pacificação no final do século passado e vi que toda a guerra de África tinha sido feita mais ou menos com naturais, sobretudo na Guiné. A guerra tinha sido feita por fulas, até 1915 ou 1916. Na Guiné chamavam-lhes as milícias dos vizinhos das regedorias. Foi uma coisa destas que tentei fazer: no mapa da Guiné, pus em cada povoação apenas gente dessa povoação. Criei um estatuto especial, Spínola leu, deu as suas indicações e aprovou. Apresentei o conceito, Spínola aceitou muito bem, e a partir daí criei tudo o resto: recrutamento, instrução, etc.
Chegámos a ter 9 000 homens na Guiné. Estávamos organizados em companhias e em pelotões. Mas os efectivos eram diferentes consoante a perigosidade da área onde estavam. A Guiné estava organizada por companhias. A cada companhia correspondia um regulado, uma espécie de condado. Fui buscar os regulados, porque nós respeitámos os usos, costumes e tradições. Simplesmente, qualquer régulo que não fosse nosso amigo era destituído e substituído por um régulo amigo. A ideia era que os régulos mandassem nas suas áreas. Eu ia a essas áreas, entrava em contacto com o régulo, e criava uma companhia que tinha o nome do regulado a que correspondia. Era preciso ter cuidado com os regulados de origem muçulmana porque, na cabeça deles, havia sempre dois homens muito importantes: o régulo e o padre. Eu introduzi um elemento novo que era o comandante militar das milícias. Era sempre gente local. Não havia transferência de efectivos de um lado para o outro porque isso na minha opinião, foi o que correu mal da outra vez. Spínola, quando chegou à Guiné, fez uma coisa revolucionária: considerou que uma guerra daquele tipo só se ganhava politicamente e nunca militarmente A única coisa que ele pedia aos militares era que não perdêssemos a guerra para lhe darmos tempo para a resolver politicamente. A partir disso, toda a manobra militar da Guiné esteve subordinada à manobra política do general. Ele traçou a sua manobra política, à qual a manobra militar ficou subordinada. Ele não retirava homens para uma área que lhe interessava mais militarmente, porque estaria a desguarnecer politicamente outras áreas. Deste modo, eu limitava-me a prepara tropas em cada uma das regiões Houve determinadas regiões, sobretudo as que estavam sujeitas à pressão do inimigo, em que defender apenas era pouco. Havia dois ou três sítios na Guiné onde a tropa africana era muito boa.
Então, propus a criação de companhias de intervenção de milícias para autodefesa. Um pelotão de milícias era em tudo igual a um pelotão do Exército. A organização era a mesma. No ano em que me vim embora, 60 por cento dos resultados positivos da guerra da Guiné foram conseguidos pelas milícias. Na Guiné esteve a melhor tropa que houve em África, comandos africanos e tropa branca portuguesa em quantidade. Tudo isto fazia parte do plano de Spínola, que criou um conceito que tentou levar às últimas consequências, mas que Lisboa, miseravelmente, cortou. Visava esse conceito criar, dentro da Guiné, uma sociedade multirracial, com uma cultura geral portuguesa. Na Guiné há mais de vinte etnias principais e umas dezenas de etnias paralelas. Os dois grandes grupos étnicos são os fulas e os balantas. Todos os povos mantiveram sempre relações com os portugueses, fundamentalmente os fulas, que Portugal respeitou até ao fim
As guerras de pacificação da Guiné deram-se em 1915, mas quando eu fui para a Guiné, em 1955, ainda conheci guerreiros dessa altura. O PAIGC apoiava-se nos balantas, no Sul. Isso fez com que se dissesse que se tratou de uma revolução agrária - os balantas eram trabalhadores da terra - o que não é verdade. Os balantas eram inimigos dos fulas, mas a inimizade processava-se em termos de forma de organização e de civilização.
Foi sob o mandato do general Arnaldo Shultz que a situação na Guiné se agravou dramaticamente. Carlos Fabião acha que Spínola introduziu um novo estilo de comando e trazia já um projecto: vencer a guerra no plano político. Para isso, tinha de remover o pessoal instalado e recorrer a novos executantes no terreno. Mas a aposta militar não foi descurada: coube a Carlos Fabião fazer o primeiro ataque a uma base do PAIGC na República da Guiné. E a invasão de Conakry, em Novembro de1970, foi uma maximização de esforço de guerra que teve amplos efeitos.
De 1963 a 1967, a situação na Guiné tornou-se bastante má. Tínhamos perdido o controlo de uma série de áreas, havia sítios onde praticamente já não entrávamos. Já havia muita gente nossa na Guiné mas havia áreas, como o Morés, o Sara Sarvoi, o Boé, Quitafine, Cantanhês, onde estávamos mal. Enquanto lá estive houve duas célebres operações no Cantanhês que foram dois desastres militares completos. Em princípio, eu iria fazer a terceira operação no Cantanhês, o que não me agradava nada. Mas nessa altura a situação no Norte já era muito má e, como a minha companhia era considerada a melhor da Guiné, transferiram-na para fazer a defesa exterior afastada da cidade de Bissau. O PAIGC estava melhor armado do que nós. Eles utilizavam a RPG e nós não tinhamos nenhuma arma com as característics da RPG.
A certa altura começou a haver uma grande falta de moral nas nossas tropas e a todos os distritos onde íamos levávamos pancada. Tite começou a ser uma desgraça. Depois ocupámos Jabadá, em frente a Tite mas tivemos mais de cem ataques fortes a Jabadá no espaço de um ano. Eram ataques pequenos mas consecutivos. No Sul tentámos fechar o corredor, mas aí as coisas também não correram bem. No Cantanhês houve dois desastres. No Quitafine houve também mais do que um desastre. O moral da tropa era baixo e vivíamos a tentar aguentar aquilo. Era muito complicado. A situação era dramática e extraordinariamente difícil. As tropas viviam fechadas dentro de arame farpado, saíam pouco, e a orientação que os comandos davam da guerra não conduzia a lado nenhum. O comandante-chefe, Arnaldo Shultz, estava diminuído pela doença. Foi um homem que descentralizou muito, mas aquilo não dava para descentralizar. Estava a correr mal, para não dizer muito mal, em todos os aspectos. Na altura, eu levei uma série de ideias que tinha aplicado e que, na sua maioria, tinha resultado bem.
Eu era escutado para tudo e tornei-me um especialista na Guiné. Não havia para mim sítios difíceis ou menos difíceis, por isso, não pensava que estava tudo perdido. Seria mais fácil para mim dizer: «Estes tipos são uns nabos, se não fizessem isto, isto não correria tão mal.» Mas estávamos na defensiva. A actividade típica de uma companhia tinha aspectos ridículos O quartel-general determinou a certa altura que todas as companhias tinham que ter por dia um quarto dos seus efectivos em acção. Isto era completamente idiota porque a companhia é que sabia o que é que podia fazer e quando é que o devia fazer. Se me obrigassem todos os dias a ter 25 por cento da minha companhia fora, não podia fazer uma operação em cheio, limitava-me a patrulhamentos. Depois ordenaram: «Tem de haver um contacto por semana com o inimigo.» Se eu quisesse, podia ter meia dúzia de contactos todos os dias. Saía dali, ia ao rio, dava meia dúzia de tiros, eles davam outros tantos e eu fazia o meu relatório. E isto dizendo a verdade, porque podia mentir, não ir a lado nenhum e dizer que tinha feito um patrulhamento. Tudo isto não resolvia nada e era uma forma rídicula de conduzir a guerra. A certa altura, eu pedia um avião de reconhecimento e eles só mo davam se a minha operação demorasse dois ou três dias. Ora uma operação de dois ou três dias era uma coisa violenta. Cada noite passada no mato era muito violenta. Eu, por exemplo, e outros se calhar também o faziam avançava com a minha tropa, acampava para passar a noite e, logo que a noite descia, levantava e saía dali porque já sabia que, a meio da noite, o sítio onde estava seria bombardeado de todas as maneiras e feitios. 0 que eu fazia eram operações surpresa. saía, dava uma catanada e voltava para trás, porque, a partir do momento em que fosse detectado, só levaria porrada. Havia uma série de conceitos que se chocavam. Por exemplo, se eu fosse colocado no centro de Mansoa, podia sair à vontade porque não tinha quaisquer problemas mas, se fosse colocado no centro do Morés, não saía um quilómetro fora do quartel. Era completamente frustrante estar ali e obrigarem-me a combater. Estava a levar pancada todos os dias. Aquilo estava muito mal organizado.
Spínola chegou à Guiné e correu com todos aqueles incompetentes. Havia muitos. Ele andou por lá. olhou, falou a este e àquele. Naquele momento havia na Guiné dois tipos de homens de guerra: os que tinham feito a guerra de Angola e os que ainda não tinham feito a guerra de Angola nem tinham feito guerra nenhuma. Eu pertencia ao grupo dos que tinham feito a guerra em Angola. Spínola também. Como a Guiné tinha um território extraordinariamente parecido com o do Vietname, sempre que chegavam à Guiné, o chefe do Estado-Maior, não por sua culpa, perguntava: «Onde é que você esteve na outra comissão?» Se nós respondêssemos Angola, que era o meu caso, ele dizia: «Esqueça tudo! Isto aqui é completamente diferente.» Lembro-me perfeitamente que mo disse a mim e eu respondi-lhe: «Não vou esquecer nada!» Eu tinha estado 27 meses em Angola e ia esquecer tudo? Spínola era um dos homens que tinha feito a guerra em Angola e não acreditava que a guerra fosse diferente. Redefiniu as missões, o que foi muito importante, e deu a cada comandante de unidade missões que ele podia cumprir. Aquela responsabilidade das grandes áreas, as áreas onde nem se punha os pés porque não se conseguia, isso tudo ele retirou e pôs áreas de intervenção do comando-chefe, áreas dependentes dele. Ele é que ia dirigir a guerra naqueles lugares. O comandante da companhia que estava em Morés, por exemplo, tinha à sua guarda a povoação de Morés e um pequeno círculo à volta. Toda a restante área era de intervenção do comando-chefe, que bombardeava a zona regularmente e que mandava para lá, também regularmente, unidades de comandos.
Spínola pedia-nos que segurássemos a situação até ele conseguir resolver politicamente a guerra. Tinha consigo um rapaz, que eu conhecia muito bem, o actual general Ricardo Durão. Tínhamos estado na mesma área em Angola. O Ricardo Durão explicou-me o projecto que o general trazia para a Guiné, projecto a que eu aderi. Penso que o Durão terá procurado captar outros oficiais para esse projecto.
Passado um tempo, a situação tornou-se muito crítica na parte leste do Norte da Guiné e foi necessário fazer uma operação para derrotar um efectivo muito numeroso que estava lá instalado. Isto passou-se em 1969-1970. A operação foi planeada a nível do comandante-chefe e, quando foi altura de reunir o comando da unidade, Spínola disse: «Disseram-me que há aí um oficial que foi promovido por distinção e que é muito conceituado. Vai esse.» Ele não me conhecia, foi assim que me nomeou. Fui ao palácio, falei com o Spínola, que me deu instruções. Comandei essa operação, que correu muitíssimo bem. Tivemos sorte. Tinha três companhias de caçadores, uma bateria de artilharia e a aviação. Os homens do PAIGC estavam na República da Guiné, tinham uma base encostada à fronteira e eu, quando fui de avião, vi a base e pedi ao oficial de Artilharia que ia comigo para fazer um plano de fogo. O oficial de Artilharia fez um interessante planeamento de fogo. À tarde, quando estávamos na reunião, eu disse a Spínola que tinha visto a base do lado de lá e ele ordenou-me que bombardeasse. Fiquei indeciso e Spínola perguntou-me se eu estava com medo. Depois deu-me a ordem por escrito. Realmente eles fizeram fogo do lado de lá, mas eu não mandei fazer fogo do lado de cá. Tivemos a sorte daquilo cair nos paióis e incendiou-se tudo. Foi a primeira vez que atacámos a República da Guiné. Foi talvez a operação em que eles tiveram mais baixas. A artilharia acertou em cheio. A partir daí criou-se o gosto de atacar bases na República da Guiné. Às vezes a Força Aérea bombardeava e o Marcelino da Mata ia lá com o seu grupo. Armadilhavam com minas um corredor, destruíam uma ponte ou faziam outra acção e depois eram recolhidos ou vinham pelo seu próprio pé. As operações eram estudadas e levava-se o armamento necessário para a acção: RPG, Kalashnikov. O Marcelino tinha um grupo de indivíduos e fazia também a sua guerra pessoal com o PAIGC. Ele tem para aí uns dezasseis filhos, legítimos e ilegítimos. Uma vez foi fazer uma operação comigo e quando voltou trazia um bebé. Eu disse-lhe: «Tu, que tens tantos filhos, agora vens com mais um bebé!» Ele disse-me: «Alguém tinha que tomar conta do menino!» Era a maneira de ser dele.
A Operação Conakry teve uma grande vantagem para o PAIGC, porque a União Soviética andava há muitos anos a tentar ter uma base em Conakry e o Sekou Touré nunca autorizou. Mas depois da Operação Conakry essa base foi autorizada.
Mas não penso que a operação tenha sido um falhanço completo.
Fundamentalmente, o que falhou foi a informação. A informação estratégica, que tinha de ser dada pela PIDE, falhou. Pouco tempo antes de morrer, o inspector da PIDE Matos Rodrigues, que andou comigo no liceu mas que na parte final da sua vida não me falava, assumiu a responsabilidade daquilo que se passou. Realmente, a informação dada ao Alpoim Calvão não foi a melhor, foi uma informação falsa. Não quero dizer que, se tivesse sido eu o comandante daquilo teria seguido a conduta que ele seguiu. Poderia não ter escolhido aquela - e teria escolhido outra porque era mais seguro -, mas não digo que aquela foi mal escolhida. Ele não encontrou os aviões quando chegou ao aeroporto, não encontrou os MiG. Portanto, as quatro lanchas portuguesas que estavam na baía estavam sujeitas a ser atacadas por MiG. O único objectivo que ao fim e ao cabo ele conseguiu foi a libertação dos prisioneiros portugueses. Aquilo com a República da Guiné era muito complicado. Os nossos aviões a jacto tinham, no que respeitava ao combustível, a capacidade de ir à fronteira e regressar. Quem fez o planeamento da Operação Conakry foi o Mário Firmino Miguel, que na altura era o chefe das operações do comando-chefe. Eu saí da Guiné em Abril ou Maio de 1970, a operação foi feita em Novembro desse ano e voltei em Abril de 1971.
A liquidação física dos majores Passo Ramos, Pereira da Silva e Magalhães Osório, na noite de 20 para 21 de Abril de 1970, foi um revés no esforço de conquista dos manjacos. Carlos Fabião acha que o PAIGC queria apenas ganhar tempo. Os guerrilheiros usavam armamento com um crescente grau de sofisticação, oriundo sobretudo da União Soviética, e o surgimento dos mísseis Strela alterou a conjuntura da guerra Ante a recusa de Caetano em negociar a paz com Amílcar Cabral, a equipa de fiéis de Spínola planeou uma estratégia para colocar o general no poder em Lisboa.
Não estava na Guiné quando foi o problema dos majores, mas entendo o que se passou. Dentro daquele projecto que Spínola tinha de ganhar a guerra politicamente, deu-se ao chão manjaco uma grande prioridade. O inimigo estava a fazer um esforço muito grande no chão manjaco e, no Leste, no chão dos fulas. O chão balanta já estava praticamente todo dominado. Para inimigo havia que subverter todo chão manjaco, fechando assim o cerco a Bissau. A seguir, o Leste, chão fula. Spínola, quando lá chegou, deu prioridade total ao chão manjaco, onde se começou a fazer uma acção sociopolítica e económica a nosso favor. O grupo que lá estava era escolhido a dedo. Foi-se buscar o melhor que havia. Quem comandava o grupo era um homem muito bom, coronel pára-quedista, o Alcino. Foi-se buscar o major Ramos, um homem muito bom para chefe do estado-maior daquele conjunto. Para as operações foi-se buscar o Osório e o Pereira da Silva, que era extraordinário em informações. O Pereira da Silva era um homem capaz de penetrar no sub mundo e conseguiu entrar numa sociedade extraordinariamente fechada como a manjaca. Era mesmo uma espécie de manjaco branco. Na manobra socioeconómica, com a parte militar a exercer o seu esforço naquele ponto absolutamente prioritário, a tropa tinha lá uma companhia de fuzileiros muito boa, que era comandada pelo actual chefe do Esta­do-Maior da Armada, o Pacheco. Tinha uma companhia também muito boa de comandos, uma de pára-quedistas e uma do Exército. Com essas unidades, ele começou a dar pancada e a cortar as vias de comunicação e a dominar o chão. Esta manobra foi lançada porque tinha cobertura militar. Aqui entram variadíssimas hipóteses para o caso dos majores, e eu vou dizer a minha, o que não quer dizer que seja a verdadeira. Nessa altura aconteceu que o PAIGC apercebeu-se de que precisava de tempo para se rearmar, reequipar, conseguir arranjar-se no chão manjaco. Então, começou a negociar a missão connosco. Penso que, desde o princípio, houve falsidade nos propósitos do PAIGC porque eles só queriam ganhar tempo.
Aquela reunião iria ser a última, em termos operacionais, porque eles já tinham prometido várias vezes a rendição e nunca se tinham rendido. Eles iam reunir-se com o PAIGC, mas esses encontros eram vulgares. O Spínola tinha estado num.O PAIGC ficava sempre de estudar as formas da rendição, mas no momento em que iam fazer a rendição, falhava outra vez. Este grupo foi dizer-lhes que era a última conversa que iam ter. Penso que, como era a última conversa que iam ter, os homens do PAIGC assassinaram-nos nessa altura.
O PAIGC tinha muitos apoios. Tinha o apoio da União Soviética, que não sei se cobrou a factura a seguir. Cuba deu-lhes apoio, mas nada comparável com o apoio que deu ao MPLA. Na Guiné, e eu vi isso na parte final, o material auto que o PAIGC tinha era quase todo sueco. A Noruega e a Dinamarca também davam muito apoio. Os russos prestavam auxilio ao PAIGC mas também faziam o mesmo em relação a nós, se quiséssemos. Vendiam armas a quem lhes pagasse. A Bélgica não vendia nada, a Holanda não vendia nada. O circuito era feito à boca dos aviões. As armas russas eram vendidas através da Norte Importadora, do Zoio, e destinavam-se formalmente à polícia do Uruguai mas eram descarregadas em Lisboa. Comprei também armas à França. Pode ser que eu um dia fale porque andei metido nisso. Vejo que toda a gente que andou metida nisso está rica, e eu não. Mas nessa altura não pensei que isso pudesse ser um negócio. Por exemplo, fiz uma encomenda de espingardas G-3 ao depósito em Lisboa e levaram dois anos a entregá-las, porque primeiro estava a Alemanha, e depois estava não sei quem. Eu, que precisava delas para a guerra, só as tive dois anos depois. Cada companhia de milícias que eu organizava tinha um preço. Por exemplo, dez mil contos. Davam-me esse dinheiro, eu recrutava 150 pessoas, às quais dava armamento, fardamento, instrução, etc. Com o fardamento e o equipamento não havia problemas, porque o Exército vendia. Mas o armamento era uma chatice, porque o Exército português tinha falta de armas. Havia uma empresa que vem dia armamento e que era propriedade, entre outros, do Alpoim Calvão. A certa altura venderam uma granada polivalente, que tanto servia de granada de mão ofensiva como defensiva. Era uma arma francesa que, segundo constou, os espiões tinham roubado à França. Mas a verdade é que os franceses venderam a arma secretamente ao Alpoim Calvão. Eu comprei armas dessas para as milícias e o Kaúlza também as comprou.
Nunca dei por Cuba ter lá conselheiros. Houve só esse capitão Peralta, que era conselheiro. Foi apanhado numa emboscada. Esta história do Peralta em Buba foi ridícula. Havia o rio Grande de Buba e o Peralta fez um reconhecimento da zona mas com a maré cheia. Isto é, viu o rio e vários braços do rio - o rio Grande de Buba. Era mais uma ria do que um rio, um rio curto e largo onde vêm desaguar muitos pequenos rios. Havia o quartel de Buba, que tinha uma pista de aviação. Mas quando ele fez o reconhecimento, fê-lo com a maré cheia, era tudo água. Mandou as tropas virem através do capim, mas quando chegaram para atacar estava a maré vazia, e onde havia água estava terra. Quando ele montou as armas e disparou, a companhia de fuzileiros saiu a pé e contra-atacou. Por outro lado, ele andou a fazer uma série de reconhecimentos e as patrulhas portuguesas a certa altura aperceberam-se e avisaram o comando, de que havia vestígios de passagem de pessoas à volta do quartel. Nessa noite. o comando determinou que estivesse um pelotão de Infantaria emboscado em certo sítio. Quando ele fez o ataque pelo capim, a tropa que estava emboscada disparou contra o capim, vinham três bigrupos, o equivalente a três meias companhias. Uma pessoa que é apanhada no meio do capim não tem visibilidade nem capacidade. Portanto, os que vinham pelo capim fugiram todos. Quando o Peralta foi apanhado, apanharam-se os croquis dessa operação. Mas uma pessoa com quem eu mais ou menos me dei mais tarde, o comandante Júlio de Carvalho, perguntou-me um dia como é que tinha falhado o ataque a Buba, porque tinha sido ele e o Peralta que o tinham planeado, e estavam convencidos de que não podia falhar. Discutimos o que tinha acontecido e ele disse-me que tinha feito o reconhecimento. Mas quando chegou ao local no dia do ataque, viu o rio em baixo, não havia nenhuma semelhança. Eles montaram as armas, mas nós disparámos e eles fugiram todos para o rio. Quando fugiram para o rio, os fuzileiros viram-nos e foi a debandada geral.
O PAIGC tinha foguetões terra-terra de 122 mm, que faziam fogo a 17 quilómetros, enquanto a nossa arma mais importante só fazia fogo a 10 quilómetros. A primeira pessoa a levar com os foguetões na Guine fui eu, fizeram fogo com seis foguetões, eu fiquei aflito porque não conhecia aquela arma. Permaneceu este tipo de guerra até aparecer c Spínola. Depois avançámos e experimentámos as companhias de comandos africanos. No filme Apocalypse Now há uma cena de um assalto a uma tabanca, após o que eles pediram o fogo dos aviões a jacto. Nós não fazíamos assim. Mandávamos os jactos à frente para bombardearem a aldeia, depois dos jactos passarem uma ou duas vezes e bombardearem aquilo tudo com napalm, caíam os helicópteros sobre a aldeia, com as companhias. Começámos a fazer isto em toda a Guiné com um grande sucesso. Spínola foi para lá, travou a queda e conseguiu inverter a situação. Mas ele não tinha ilusões. Havia a possibilidade de se terem estabelecido outras ligações entre nós e pelo menos a Guiné, São Tomé e Cabo Verde. O Amílcar Cabral acabou por pedir liberdade política, não exigia a independência. Quem matou o Amílcar Cabral não sei, podiam ter sido quatro diferentes forças. O Senghor disse-me que tinha sido o Sekou Touré, mas como o Senghor e o Sekou Touré não se entendiam, tenho alguma reserva. Tenho elementos suficientes para dizer que foi a PIDE, mas também tenho elementos suficientes para dizer que foi a República da Guiné-Conakry. Pode também ter sido o PAIGC, em resultado de uma luta de poderes. E pode ter sido, e creio que é também uma hipótese com muita força, a União Soviética. Isto porque a Guiné era a mais fácil e a mais barata para pressionar Lisboa. Em conversa com um inspector da PIDE, eu disse-lhe: «Agora só faltava mais este disparate, matarem o Amílcar. » E ele, não muito surpreendido, respondeu: «E se o Amílcar Cabral proclamasse a independência até ao fim do ano?» Mas isto não prova que tenha sido a PIDE, embora a PIDE, segundo eles diziam, tenha estado na morte do Amilcar Cabral. O Aristides Barbosa tinha saído do campo de concentração do Tarrafal, foi levado pela PIDE para Bissau, onde lhe arranjaram um emprego.
Spínola ouvia muito o Ricardo Durão e o Rafael Durão. Ao núcleo duro do staff dele pertenciam eu, o Carlos Morais, mais tarde o Dias de Lima quando o Carlos Morais acabou a comissão, o Carlos Azeredo, o João Almeida Bruno, o Firmino Miguel e o Pereira da Costa. O Azeredo tinha uma certa «pancada», mas o resto era gente normal. Uma noite este grupo, excepto o Dias de Lima, reuniu-se em Bissau, depois de fazer um estudo exaustivo do que se estava a passar no país e nas colónias, e chegou à conclusão que a maneira de resolver o problema nacional era destituir o Governo e substituí-lo por alguém que quisesse resolver os problemas nacionais, como era o caso do Spínola. Puseram-se várias hipóteses, até que assentámos no projecto de transformar Spínola numa figura nacional, de tal maneira importante que eles não pudessem pô-lo numa prateleira, quando ele regressasse a Lisboa. Quando o Spínola tivesse uma posição importante em Lisboa, ia colocando os seus homens de confiança, que eram muitos, nos lugares importantes. No momento em que ele achasse que tinha o espaço nacional coberto por pessoas da sua confiança, subia a escadaria de São Bento, batia à porta e dizia ao Marcello: «Gostei muito deste bocadinho, mas vá-se embora porque quem manda agora sou eu.» Seria um golpe de Estado típico. Isto falhou porque o Spínola, apesar de ter ido para um lugar importante, que foi criado de propósito para ele - vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas -, nunca conseguiu pôr uma pedra dele em nenhum sítio porque não o deixaram. Entretanto, mobilizaram-se jornalistas, portugueses e estrangeiros. O Dominique de Roux, francês, era um dos homens que estava connosco. O Victor Direito, do República, também.
Quando apareceram os Strela, a guerra da Guiné acabou. Deixámos de ter possibilidades de acção. Não é fácil dizer que a situação estava perdida, embora haja gente que faça análises pouco sérias, na minha opinião. Se me disserem que a guerra colonial estava perdida na Guiné, eu digo que estava. Se me disserem que a guerra colonial não estava perdida na Guiné, eu digo também que não estava. E não estava a que preço? O regime mandava para lá aviões, helicópteros, mas homens não sei onde é que os iria buscar. Um amigo meu dizia-me: «Até os ceguinhos dão para escuta!» Não era bem assim. Por exemplo, um dia passou por mim um soldado que não me fez continência. Chamei-o e perguntei-lhe se ele não me tinha visto. Ele disse-me que sim, que me tinha visto e deu-me um papel do seu comandante de companhia que dizia: «Atesto que o soldado tal é paralítico do braço direito.» Isto dá vontade de rir mas é dramático. De qualquer maneira, para resolver uma guerra não se pode manter esta posição. As duas experiências no Vietname, a francesa e a americana, mostraram o que é que acabava por acontecer. Não vamos sequer comparar o poderio que tinham os americanos com o poderio que tinham os vietnamitas. A solução que Spínola tinha conseguido na altura seria extraordinária e o futuro mostrou que ele estava cheio de razão. Podíamos ter resolvido a questão em 1972 e não a resolvemos porque Caetano disse claramente a Spínola que aceitava um desastre militar mas nunca uma cedência política. Isto foi a coisa que mais me marcou. Estávamos a trabalhar, dávamos o melhor de nós próprios. estávamos convencidos que trabalhávamos por uma causa de interesse nacional, mas víamos que indivíduos, porque politicamente não lhes convinha, sabotavam as negociações de paz.

BIBLIOGRAFIA
A Guerra de África (1961-1974)
Circulo dos Leitoes - VOL I

Sem comentários: